#52 – Batman: Noël

Sejam bem-vindos à mais um post de one-shot. Venho satisfeito por essa história ter caído em minhas mãos, vocês talvez nem tanto, pois a morcego-chefe talvez fosse falar mais bonitinho a respeito dessa história tão bem feita.
Essa é uma história made in Lee Bermejo’s head. Eu já sabia que ele era um desenhista de mão cheia, mas revelou-se também um roteirista de primeira. Acredito eu que esta é a primeira história que leio dele como roteirista.
Assim como as demais histórias “recentes” que ele tem desenhado pra DC, “Coringa” (com o Azzarello no roteiro) e a “Lex Luthor” (também com o Azzarello no roteiro), essa história é bastante envolvente, e com um diferencial que eu achava ser marca registrada só do Azzarello, o “herói” não é o foco.
Vamos a Noël. (“Batman: Noël“, no original)

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A história tem uma arte impecável, provavelmente o uniforme mais realista e bem feito que o Morcego pode ter. Talvez essa seja uma das razões que Lee Bermejo não poderia ser desenhista da série mensal, ele deve demorar séculos pra terminar uma simples revista. Isso é dedução minha, se ele tiver capacidade pra ser desenhista mensal a DC tinha que ter um pingo de vergonha na cara e contratar o homem pra série mensal, URGENTE, porque o atual tá deixando a desejar.

CapaContracapa

Detalhes da capa e contracapa de “Batman: Noël”.
Clique para aumentar.

Mas então, o uniforme. Querem detalhes? Os olhos por dentro da máscara. Eu prefiro os olhos “brancos” que fazem aquele contraste na escuridão, coisa que faz parte de qualquer boa história sombria do Batman, mas se for pra fazer sem os olhos brancos TEM que ser igual ao Bermejo. Segundo ponto, as costuras das calças e camisa, em terceiro o cinto que claramente tem caimento na cintura e grandes compartimentos que não são meras caixinhas de tic-tac. Quarto, fivelas nas botas (isso eu particularmente achei meio dominatrix demais, porém ficou bom). Fora os cenários que são dignos de você perder um tempo procurando algum Wally, de tão detalhados e completos.

Detalhes da roupa de Batman

O roteiro, também vindo das mãos desse artista, se assemelha muito aos roteiros do Brian Azzarello, coisa que ele deve ter pego com certeza do próprio Azzarello, uma vez que eles trabalham/trabalharam juntos diversas vezes ao longo da vida.
A história fala de Bob e Scrooge. Começa com o tal Bob, um sujeito caricato com jeito de ser um baita enrolado. O narrador diz que ele tem um filho, que o menino tem um problema na perna e não tinha a saúde boa, que mora em um lugar ruim, que passam necessidades… Enfim, conta por alto a vida do Bob. Na boa, eu fiquei até meio triste.
Bob em suas andanças e busca por algum boost em sua vida, foi dar uma mão a quem não devia, carregando algum pacote… E durante uma chuva de Xuxa, no colo dele caiu o Pelé. O Batman desceu na frente do coitado igual um demônio por causa da tal caixa, deu-lhe um susto básico e botou o cara pra correr.

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003Chegando em casa, Bob correndo de medo da “assombração”, dá de cara com seu filho lhe mostrando a árvore de natal que ele fez com coisas que achou no lixo. O pai nervoso e assustado grita com ele, o garoto fica triste e logo o pai sente o que fez. Ele pede desculpas e dá atenção pra árvore feita com latas e bonecos.
O menino comenta que queria colocar o simbolo do Superman no soldadinho, pois ele (Superman) tinha cores vermelhas que lembrava o natal, e que talvez colocasse algo do Batman. O pai (que tinha acabado de tomar um apavoro do morcego) diz que o Batman não tem nada de natalino, a criança argumenta que ele só pega gente ruim, e surge o dilema, “Às vezes, mesmo as pessoas boas fazem coisas ruins”.
004Depois desse tanto da vida do Bob, assim como vários personagens nos quadrinhos e filmes, caímos na caverna. Lá está o Scrooge, mais conhecido como Bruce, visivelmente gripado, junto ao Alfred que… Talvez tenha sido a única coisa feia que vi o Bermejo desenhar. Ignorando esse detalhe, o Alfred comenta que o Bruce pode ter pego algo devido ao frio, Bruce nega, então Alfred solta uma frase muito boa: “Seria, depois de tudo, impossível o ‘Cavaleiro das Trevas’ assoar o nariz”.
Temos um quadro interessante nessa altura da história na caverna. Uma vitrine com uniformes antigos do Batman, inclusive o primeiro de todos. Ver algo tão antigo no traço do Bermejo faz até parecer que ficaria legal hoje em dia. Tá, nem tanto.

Acervo
005Ainda falando de uniformes, impossível não notar o uniforme de um Robin ali. Até então, foi a primeira vez algo relacionado a Robin apareceu em uma história feita pelas mãos de Bermejo. Finalmente vemos que nesse universo “Azzarello/Bermejo” (lembrando que Azzarello não está nessa produção) existiu um Robin, só que ficou no ar uma lacuna maior que o tríceps do Hulk. Quem diabos era aquele Robin?
Foi dito ali que aquele Robin tinha morrido, e que após isso o Batman “secou” por dentro e virou um pitboy na rua. “Ah, se morreu, só pode ser o Jason!”.

008É, quisera eu pensar por vias tão simples. Esse foi o primeiro indício de um Robin ali, não sei se no universo “Azzarello/Bermejo” aquele er ao Dick e o Dick morreu ou se aquele era realmente o Jason. E mesmo que fosse o Jason, então a história se passa ANTES da chegada do Tim Drake? Ou já tem o Drake e aquilo foi antes da ressurreição do Jason, lá pela época da Silêncio (ou um pouco antes disso)?
Puxo uma seta agora para lembrar que essa história foi feita já após o Batman ter ganhado seu novo uniforme sem a cueca por cima da calça na série principal, porém ele ainda está com a cueca lá, e o resto do uniforme já está com aspecto de armadura, como no atual. Isso mostra que a história não tá nos “últimos passos” que a cronologia principal deu, essa história realmente se passa em algum ponto mais “para trás” nos fatos.
Cena seguinte, Batman e Gordon falando de Mulher-Gato. Batman com tosse de gripe, coisa que nunca vi também. Acho que nunca ninguém fez um Bruce com uma doença simples como uma gripe, da qual nem o BATMAN é imune, em sua condição de humano.
009Temos então uma sequência de quadros do Batman com a Mulher Gato que ficaram sensacionais. Traços impecáveis, luz e sombra… Só pra quem tem tempo e habilidade mesmo. Diálogo segue, Batman aparentemente piorando de sua tosse, e surgem desenhos de lembranças, Coringa, Duas-Caras, Espantalho, Pinguim, e o Robin. Que maravilha ver todos eles em traços tão bons.
Outra coisa que dá pra notar foi o cuidado tido na expressão do rosto do “Batman das lembranças”, o Batman da elipse amarela de quando o Robin ainda estava vivo. Ele tinha um semblante menos fechado, até um certo sorriso, coisa que faz lembrar MESMO o Batman bobo daquela época, tanto nas histórias quanto nos seriados e etc.
007Enfim, a Mulher Gato foge graças a um acidente do Batman durante um salto, e após a queda (e após também a lembrança da morte dos pais), quem surge para falar com o morcego? Superman.
Se vocês leram a “Lex Luthor: O Homem de Aço”, passariam a ter um certo “medinho” do Superman nas histórias do Azzarello/Bermejo”, mas nesse caso, aparentemente, o lado obscuro do Superman é mais coisa do Azzarello, pois no roteiro do Bermejo o Superman parece… O Superman mesmo, um sujeito bondoso, sem laser fumegando pelos olhos o tempo inteiro como na história “Lex Luthor”.
Rola mais uma das lendárias comparações entre a grandiosidade quase divina do Superman e a simplicidade e sofrimento humano do Batman. Já estamos mais carecas que o Lex com esse papo, mas sempre vale a pena quando são novas associações.
010Superman diz ter ouvido a tosse do Batman lá de Metrópolis, oferece ajuda, e o Batman sempre carinhoso e simpático pergunta se não tem ninguém no mundo precisando ser salvo. Foi quase um “Você não voa? Então vai pra …. fortaleza da solidão assistir o filme do Lanterna Verde”. Superman oferece carona pelo menos até o carro, então Batman dá sua condição, que era ser levado até a janela de Bob.
Superman, assim como Alfred, demonstrou preocupação com a criança, o filho de Bob. Batman cagou e andou pra isso pela segunda vez e deixou claro que ainda daria um susto no moleque pra evitar que futuramente ele também virasse marginal.

Superman pega o Batman igual uma criança pelos suvacos e sai voando com ele por Gotham, e durante o vôo, claro, mais papos sobre ”Você olha as pessoas de cima” by Batman, “você deveria mostrar o rosto a elas, pra verem que é uma pessoa igual a eles” by Superman e “Isso é fácil quando a bala ricocheteia ao bater nele” by Batman. A eterna dualidade entre essa dupla de luz e sombra.

“Ah, não se engane, ele não é nenhum mal. Não, eu diria que ele anda muito na linha. É só que às vezes ele pisa no lado da linha que eu ou você evitamos pisar. Jogue muito tempo no mesmo lado e você começa a parar de ter uma noção da linha. A visão dele, muitas vezes, pode ser borrada, mas eu gosto de pensar que eu sou a prescrição que ele precisa para ver melhor”.

Essa frase foi dita pelo Gordon, em casa.

011Foi praticamente um “Você precisa sair da ilha para ver a ilha” (frase de Saramago) misturada com a de Nietzsche sobre tomar cuidado ao combater monstros pra não acabar ficando igual a eles. O abismo que olha de volta e etc. Muito boa aplicação da teoria na história.
Superman deixa o Batman perto do carro, e então ocorre o primeiro erro grotesco pelas mãos do Bermejo. O Bat-móvel explode, uma arapuca do Coringa. Vamos lá, o erro foi composto de duas partes.
Primeira: Colocaram uma armadilha no Bat-móvel. Gente, é o Batman, e o Batmóvel é o carro do Batman. Até a máscara e o cinto dele dão choque quando alguém mexe sem autorização, o carro simplesmente estava ali estacionado igual o taxi do Agostinho da Grande Família? Cacete. Já não bastou o Jason Todd ter sido encontrado roubando uma CALOTA do Batmóvel antigo, estilo calota de kombi toda oval, aí agora o Coringa mete uma bomba que aciona assim que o Batman liga o carro? Ou seja, tava metida em fiação eletrônica e o escambau , o Coringa mexeu BONITO no carro.
Segundo: Foi uma EXPLOSÃO, e o Superman tinha acabado de sair dali. Lembram quem é o Superman? O sujeito com super audição que há poucos segundos estava preocupado com o Batman? É. Ele não voltou, e o Coringa pegou o morcego desacordado.

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012Coringa arrastou o Batman pra uma cova já aberta, com uma lápide que seria deveras cômica se não fosse ridícula (até mesmo pro Coringa), ele simplesmente joga o Batman vivo ali dentro, enterra como se não soubesse que se o cara estivesse vivo sairia de lá até com o siso amarrado nas costas. De lá o Coringa faz exatamente o que o Batman estava há tempo esperando, foi buscar o Bob. E quem abre a porta? O filho do Bob.
Mais uma vez a tristeza entra em cena. Inicialmente, a tristeza veio da condição de Bob e seu filho, agora, Bob sob a mira de um Coringa furioso, e seu filho agarrado na perna do Coringa, chorando pedindo pela vida do próprio pai. Uma criança que não tem praticamente nada, e estava vendo a única pessoa que tinha em sua vida prestes a morrer.

Joker2
006Então Batman faz uma entrada bem a estilo dele mesmo, pela janela, com o pé no peito do Coringa. Ambos vão pro chão dando tempo suficiente do Bob pegar a arma que há poucos segundos ameaçava sua própria vida e apontar pra cara do Coringa. O palhaço mandando atirar, o Bob doido pra obedecer, e o Batman igual a turma do “deixa disso” tentando acalmar o saracutaco no apê.
O morcego entrou com seu lado psicólogo trazendo a humanidade de volta ao Bob, aplicando sua teoria mais primordial, o “não matar”. Disse para ele dar exemplo ao filho, mostrar que ELE era um herói, e assim fez o Bob.
Coringa foi preso. Brruce volta pra caverna. Bob recebe uma árvore de natal invejável em casa, e junto da árvore, emprego. Ao ver a última página, podem ver que o narrador da história é o próprio Bob falando de si na terceira pessoa. No penúltimo quadro, um pequeno, você vê a árvore de natal, e no último quadro, Bob, vestindo um uniforme de alguma das empresas Wayne.
TimmyBruce Wayne deu a volta por cima com esse homem e seu filho, antes torcia para ele morrer e dar um susto no garoto, e no fim das contas, salvou ambos e deu a eles algo que maioria das vezes o mundo não dá a ninguém, uma coisa que nem o Superman poderia dar. Oportunidade. Bob agora tinha um emprego que, como foi citado na história, pelo visto tem extras, aposentadoria e tudo mais, uma oportunidade para Bob se reerguer e sobreviver com seu filho. Um presente de um único natal que valerá para todos.
Tirando a parte do Coringa plantando explosivos no batmovel e o Superman não ter escutado a explosão, a história foi perfeita. Posso até ignorar minha chatice e dizer que esses erros tiveram “licença poética” para a história poder terminar como terminou. Ficou tudo válido. E a arte, agradeçam a quem quer que acham que devam por poder apreciá-la. “Batman: Noël” é uma obra de arte.

(Nota da Jéssica)
“Batman: Noël” é uma adaptação do conto “Um Conto de Natal” (1843) de Charles Dickens. Nessa história, conhecemos a história de Ebenezer Scrooge, um avarento senhor que simplesmente odeia o Natal. No dia 24, ele é visitado por três espíritos do Natal: o passado, o presente e o futuro. E esses fantasmas contarão para Scrooge uma história sobre perdão, amor e dar-lhe uma lição de vida.
“Um Conto de Natal” também inspirou outra HQ que eu já postei aqui no Batman Guide: trata-se da história “Fantasmas” (Ghosts), que foi publicada no especial de Dia Das Bruxas. Clique aqui para ler.

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Essa edição traz alguns rascunhos e comentários do próprio Lee Bermejo.
Download via Darkseid Club
COVERDownload no MEGA – Batman: Nöel

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  1. Acho que deixei passar um pensamento ou outro na cena do menino agarrado na perna do Coringa. Bob era a única luz que o garoto possuía, seu único defensor. Entre o planeta e o garoto só havia o Bob. Era o mundo do garoto em jogo ali, prestes a ruir,e o Batman faz uma entrada espetacular dessas e salva o “mundo”. Acho que foi um ato tão heroico quanto peitar o Darkseid no espaço.

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  4. Teve Hq que eu gostei mais da trama e outras mais da arte. Em “Batman Noel” a trama é muito boa, mas a arte de Lee Bermejo me deixou de boca aberta. A versão dele do uniforme do Batman deve ser uma das que mais gostei até agora, acredito que com algumas adaptações é possível até usar em filmes. Geralmente os uniformes do Batman no cinema são muito restritivos, e o uniforme do Lee Bermejo parece dar mais liberdade de movimento e não ser tão colada… 😄
    Ótimo post, amei a Hq e sigo lendo….

    • Oi Abner,
      Eu adoraria de ver uma versão do uniforme do Bermejo nos cinemas!
      Mas eu acredito que a mobilidade dos uniformes do cinema seja justificada pela sua blindagem e proteção contra materiais cortantes. Para uma versão de Bermejo seria necessário elaborar uma justificativa dessa questão de “mobilidade x proteção”.

      Beijos, querido!

      • Li em algum blog que a nova roupa do Batman que será usada no próximo filme será baseada em Batman Noel. A ideia é não fazer algo parecido com o que foi feito pelo Nolan.

        • Isso mesmo Bob, a inspiração do traje que Affleck usará no próximo filme será na roupa desenhada por Lee Bermejo.
          Como vocês podem ver com seus próprios olhos e com a descrição minuciosa do Augusto, que eu endosso, podemos ter certeza que pelo menos o figurino será poderoso.

          Beijos e obrigada pelo comentário!

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