#53 – Batman: Caminho Para “Terra de Ninguém”

“- Você é como um guardião de Gotham, não?
– Eu passei a vida toda aqui. Gotham me moldou.
– Mas a cidade caiu… E te derrubou.
– Não para sempre.
– Eu sei. As ruas, os prédios… Tudo será reconstruído. Algum dia, todos vão olhar ao redor sem lembrar desta tragédia. Mas essa é a restauração física, Bruce. E quanto às almas devastadas?
– Tem razão… São elas que mais importam. As cicatrizes invisíveis. Só nos resta esperar que o tempo as apague.
– Vamos rezar por isso. […] Eleve o espírito de Gotham. Ele é precioso demais para ruir.”

Olá!
Dando prosseguimento à cronologia do Batman, as obras de hoje contam o que aconteceu em Gotham City depois da tragédia que se abateu em “Terremoto”. Essa história se divide em cinco “arcos”: “Depois do Terremoto”, “Azrael, Agente do Morcego”, “O Homem de Cera e o Palhaço”, “Sr. Wayne via a Washington” e “Lutar ou Fugir”.
A HQ de hoje é: “Batman: Caminho Para Terra de Ninguém” (Batman: Aftershock / Road to No Man’s Land, 1998-1999).

Line

001Começamos com Batman e Robin tentando desobstruir as passagens da Batcaverna, inacessíveis devido ao terremoto. Apesar de perderem dois batmóveis, eles conseguem cavar a entrada. Contudo, essa parece ser a única boa notícia: ainda há pessoas presas no metrô de Gotham, que costumavam receber comida e água, mas que com os tremores de assentamento pós-terremoto ficaram completamente inacessíveis. Para os policiais de Gotham seria impossível tentar abrir uma passagem até elas, pois poderia soterrá-las. Mas isso na perspectiva das pessoas normais, claro. Batman desconhece o termo “impossível”.
E claro que ele consegue libertar essas pessoas. A única saída seria conduzi-las pela abertura recém-cavada da Batcaverna – e permitir que tomem conhecimento sobre a identidade secreta de Batman. Entretanto, o Morcego acha um preço justo a se pagar.
002Mas eis que são impedidos pelo desequilibrado Otis Flannegan, o Caça-Ratos, que estava preso em Blackgate antes dela ser destruída pelo terremoto. Ele está liderando uma tropa de ratos furiosos, e quer alimentá-los com os cruéis humanos a quem Batman tenta proteger. Mas devido à pressão que os ratos exercem, eles acabam caindo e sendo esmagados pelos destroços do metrô. E agora, subjugado, Caça-Ratos é obrigado a mostrar o caminho de saída para todos os sobreviventes.
Agora é necessário lidar com outro problema: como reconstruir a Mansão Wayne sem que os trabalhadores tomem conhecimento da Batcaverna? Dick Grayson e Alfred tem uma idéia: remover temporariamente toda a mobília, acessórios, batmóveis, batcomputadores, etc. Assim, a caverna pareceria, aos profissionais da construção civil, apenas uma fenda aberta pela ação do terremoto. E assim é feito.
005As corporações Wayne têm contribuído majoritariamente no projeto de reconstrução de Gotham, fornecendo verbas, abrigando pessoas que perderam tudo que tinha, investindo em projetos anti-terremoto. Quando questionado sobre como ficariam os lucros da empresa durante esse período, Bruce é taxativo: “Até Gotham se reerguer, a única prioridade das empresas Wayne não será lucrar. Nós vamos priorizar a melhoria da qualidade de vida na cidade”.
Uma cena tocante é ver Batman desabando nos ombros de Alfred, que, emocionado, se lembra de quando os pais do pequeno Bruce Wayne morreram e ele também se sentiu muito perdido. É emocionante porque Batman sempre se ocupa em esconder seus verdadeiros sentimentos sob uma capa de força desmedida. Nos esquecemos que ele é humano.
003Mas uma cidade tão fragilizada acaba atraindo inúmeros pistoleiros se espalham pela cidade, trazendo o caos a uma cidade em ruínas. (Para isso, Batman conta com a ajuda de Balístico, um ex-policial da SWAT) Além disso, há outros problemas estruturais: os escombros impedem que o caminhão de coleta de lixo passe por toda a cidade, então alguns pontos estão simplesmente com pilhas enormes de lixo. Animais como ratos e cachorros estão se alastrando indiscriminadamente pela cidade.

Animais

O necrotério municipal de Gotham está com a capacidade sobrecarregada, tornando-se urgente iniciar a cremação forçada dos corpos que lá estavam. Os bombeiros, apesar de seu trabalho incessante, parecem estar espiritualmente derrotados. As adutoras de água da cidade estão praticamente impossíveis de serem controladas, e há o risco de uma epidemia de cólera e outras doenças contagiosas na cidade. Os serviços públicos suspenderam todas as suas atividades, causando um problema não só financeiro, mas de logística. A alimentação enviada por helicóptero é insuficiente em todas as áreas da cidade. Os hospitais estão trabalhando com o mínimo de recursos possíveis. O corpo de policiais parece não dar conta de lidar com a efervescência de criminosos nascidos com o caos de Gotham. Até mesmo o inquebrantável Batman vê sua esperança diminuindo progressivamente.
004Diversas ocorrências vão surgir durante essa HQ, como quando criminosos cercam o hospital de Gotham para saquear os remédios e drogas medicinais lá estocados. Com um efetivo reduzido, a polícia não conseguiria garantir a segurança das pessoas lá internadas, mas com a ajuda de Batman e Robin isso se torna possível. Crianças perdidas sem as mães precisarão de toda a ajuda possível para não ficarem à deriva. A contagem oficial estabelece o número de um milhão de mortos, além de milhões de desabrigados. Há um crescimento desenfreado da criminalidade e desobediência civil, provocado pelo egoísmo e maldade humanas, ou, numa perspectiva mais otimista, pela destruição dos sonhos da pessoa e da perda de sua capacidade de acreditarem que tudo ficaria bem um dia, de novo. E esses cidadãos parecem ter poucos motivos para acreditar. “Há poucos dias o mundial de beisebol era a preocupação deles. Hoje eles se matam por água.”


006A posição do magnata Bruce Wayne é importantíssima nessa nova fase da cidade; ele, que já era bilionário, perde a concorrência e torna-se o homem mais rico de Gotham. Qualquer mortal comum se aproveitaria disso para movimentar seus lucros, mas não Bruce Wayne, que cria complexas estratégias juntamente com Lucius Fox para reconstruir a cidade.
Esse tipo de atitude acaba por incomodar outros empresários locais. Devlin Davenport é um desses homens. Quer impedir que os minguados escombros que sobraram de um prédio seu sejam demolidos, ainda que essa destruição seja crucial para a passagem dos caminhões de emergência. Ele não se importa com isso, na verdade.
Diante do túmulo de seus pais, Batman reflete com as seguintes palavras:

“Eu jurei proteger os inocentes. Eu jurei que ninguém sofreria se eu pudesse evitar. Há anos eu tenho sido um devotado guardião de Gotham. Mas o que eu posso fazer contra epidemias ou tragédias naturais? É como me devotar a causas perdidas. Eu sou só um humano. E faço o que é possível. Eu espero que vocês não me considerem um fracasso. Eu vim reiterar meu juramento. Mãe, pai… Enquanto houver vida neste corpo, vou ser um instrumento de justiça. Por vocês… E por todo mundo. Eu espero que vocês me perdoem pelas falhas. Porque eu não sei se posso me perdoar.”

Wayne

Essas falas chegam a soar irônicas para nós, observadores, que sabemos o quanto Batman é meticuloso e que ele está fazendo o impossível para salvar Gotham. Mas isso nunca é suficiente para Batman. Ele sempre quer fazer mais. Ele não tem um pingo de auto indulgência. Ele se cobra de tal maneira que chega a nos assustar. Batman não suporta a idéia de sequer pensar em falhar. Quando acredita que fez isso, é tomado de um sentimento de culpa, de ter fracassado. É possível observar isso num diálogo entre Alfred e Robin, neste mesmo arco:

“- Cadê o Bruce?
– Na cidade, fazendo o que pode.
– Ele está se martirizando, né?
– Como sempre.”

008Em “Caminho para Terra de Ninguém”, há um momento parecido com o que houve na HQ “Batman – Noël”, postada no domingo passado. Asa Noturna e Batman estão observando a cidade e relembrando dos tempos em que formavam juntos a dupla dinâmica. Tudo era tão simples, e havia uma grande esperança nas ações de cada um. Não que não haja esperança agora; mas fica difícil cultivar a fé numa cidade destroçada. Os sonhos acabam ficando destroçados também. É de cortar o coração ver Batman (que há anos vem lutando incessantemente a acreditando nas pessoas mesmo com bons motivos para nunca mais querer saber delas) dizendo “Desta vez nem eu sei se a cidade pode recuperar o equilíbrio. O tombo foi feio demais.” Outro trecho da conversa deles demonstra o estado de profunda tristeza de Wayne:

“Quando fiquei órfão, eu imaginei um futuro. E tudo que vi foi Gotham. Mais limpa e brilhante do que nunca. Eu queria torná-la esse lugar. Eu sacrificaria tudo para erigir uma cidade onde o que aconteceu com meus pais seria inimaginável. E quando eu imaginei essa cidade, eu nunca me vi nela. Como se eu morresse bem antes da utopia se realizar.
Hoje Gotham morreu. E eu estou vivo.”

010No dia do “aniversário” da morte de Jason Todd, Coringa é responsável pela morte de Sherman Shoud. Ao descobrir isso, Batman vai até o Arkham e o espanca (com muita razão) para tentar descobrir o esconderijo de uma criança que Coringa mantém refém. Depois de muita insistência à base da pedagogia do punho, o vilão revela o paradeiro da criança: um porta-malas numa balsa de Porto Angel. Batman tem 20 minutos para chegar à criança antes que ela morra. E ele consegue.
Mas esse é apenas um lapso de esperança numa cidade com cenas grotescas. Um homem que se barbeava antes do terremoto, e que ficou com a garganta trocada; um triciclo infantil à beira de um abismo… Um velho soterrado por uma pilha de jornais… Uma mulher toda cortada por estilhaços, segurando seu cãozinho que tentara proteger do terremoto… Dentre outras imagens que deixam Batman em pleno desespero e sofrimento.
012Em Washington, há um senador chamado Esterbrook Halivan, que é o único disposto a arrecadar fundos para a reconstrução de Gotham. Contudo, ele está sofrendo severas ameaças à sua integridade física. Como Batman e Asa Noturna não podem abandonar Gotham, o Morcego solicita a Azrael que proteja o senador. Jean-Paul segue para Washington para encontrar o senador, que participaria de um evento público. Um dos poucos momentos de humor nessa HQ é quando Jean tenta comprar ingressos para o show, mas eles estão esgotados; então, ele vê um dos ajudantes da banda que tocaria apresentando-se ao segurança para poder entrar, e decide vestir a excêntrica roupa de Azrael e dizer que era da banda também. O segurança libera.
011Contudo, o vocalista da banda que tocaria naquele dia, Nicolas Scratch, era a principal ameaça ao senador. Arma uma emboscada para que seus capangas o matem, mas Azrael acaba salvando o político. Mas não consegue salvá-lo das mãos do próprio Nicolas. E ainda arma para que Azrael pareça ser o culpado pelo assassinato do senador. Nicolas é um grande inimigo de Gotham, considera a cidade um grande desperdício de tempo e recursos, uma cidade maligna, e quer impedir a todo custo que a cidade se reerga. Muito mais que isso: ele quer que a cidade morra.
Batman está furioso com Jean-Paul porque ele falhou na missão e permitiu a morte do único amigo de Gotham no congresso. Manda que ele abandone a identidade de Azrael e saia da cidade o quanto antes. Ele não obedece… Ainda há coisas a realizar na cidade. Há pessoas a salvar.
Em Arkham, a situação também está caótica. O Dr. Jeremiah Arkham está tendo muitos problemas em manter a prisão-asilo, pela falta de recursos, de funcionários e pela atitude dos internos – que são apenas os vilões mais perigosos de toda Gotham. Coringa sugere uma solução nada convencional, baseada nos gladiadores romanos:

Joker

013De algum modo estranho, a idéia do Coringa é aceita. O Dr. Arkham deixa a medicação dos internos por conta de dois policiais, que mesmo estranhando as ordens vindas do computador programado pelo chefe do asilo, ministram os remédios indicados na tela. Mas… Coringa alterou a programação do computador. Mandou darem depressivos para maníaco-depressivos. Darem anfetaminas aos hiperativos. “Tudo por uma risada!”
E é claro que essa luta saiu do controle completamente, e os presos de Arkham se rebelaram, tomando a equipe como reféns. E Batman precisará conter os presos, sozinho, um por um. Batman é subjugado pelos prisioneiros de Arkham.Mas não é Batman, realmente. É David, o ajudante de Jeremiah. Ele é morto pelos internos, que tomam o asilo Arkham, isolam o doutor e tomam o prédio do asilo. Começam a se matar para comer a carne um dos outros. Jeremiah os liberta sob uma condição: que eles não voltem à Gotham. Mas é claro que o que vai acontecer é exatamente o oposto.
014Enquanto isso, Bruce Wayne deixa momentaneamente o papel de Batman para ir a Washington na figura do bilionário interessado em reconstruir Gotham. A opinião pública de todo o país está contra ele. Ele parte para tentar ganhar a opinião pública e angariar mais fundos para que a cidade seja reconstruída. Há uma coalisão bipartidária contra Gotham. E Nicolas Scratch e sua legião de fãs constituem uma grande força contra a cidade. 82% do país está contra Gotham. À noite, Batman sonda os senadores para tentar descobrir quem está por trás desse movimento anti-Gotham.
A cidade recebeu o prazo de 48h para fechar. A cidade está em quarentena. Depois, todas as ligações com a cidade serão cortadas e ela ficará isolada. E os capangas de Nicolas Scratch estão invadindo a cidade, e eles não são seres humanos normais. São geneticamente modificados, fisicamente, e tem caras de demônio. (Um detalhe interessante: um dos capangas de Nicolas se chama “Pazuzu”. Pazuzu, também conhecido por Pazuza ou Fazuzu, é o rei dos demônios do vento na mitologia dos sumérios. Ele é um ser que possui asas de águia, garras de leão e cauda de escorpião. Não sei se você lembra, mas esse é o demônio que possui a personagem Regan MacNeil no clássico filme de terror “O Exorcista”).

015Batman defende a cidade numa audiência com os senadores em Washington, se lembrando de momentos importantes da sua vida: de quando enfrentou Ra’s Al Ghul; de quando foi derrotado por Bane; de quando Gotham foi contaminada com o vírus Ebola Golfo-A.
Como Bruce Wayne é o único homem que pode impedir Nicolas Scratch de concretizar seus planos contra a cidade, ele contrata uma atiradora para matá-lo. Ela acaba errando o tiro.
Depois disso, Bruce falta à importante reunião para decidir o destino final de Gotham. Ele está desaparecido. Nicolas Scratch intensifica a perseguição ao Morcego. Não é para sequestrar, não é para machucar, nem para “convencê-lo” a parar de tentar defender Gotham: é para matá-lo.

Faltam cinco minutos para Gotham ser isolada.

Não vou contar o final. Leiam a HQ! 😉

CoverDownload no MEGA – “Caminho para Terra de Ninguém”

Anúncios

  1. Pingback: #54 – Batman: Terra de Ninguém | Batman Guide

  2. Pingback: ESPECIAL: Dia dos Namorados #2 – Bárbara Gordon e Dick Grayson | Batman Guide

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s