#70 – Batman: Morte e as Donzelas

“Eu sou a filha de meu pai, detetive. O legado dele é meu agora, e o que faço, faço por ele… E por um bem maior. Não é exatamente isso que você faz, detetive? Um trabalho em memória de seus pais? Não é essa a razão de sua existência?”

Olá! Sentiram minha falta? Finalmente estou de férias!
A HQ de hoje insere-se em um ponto anterior da cronologia, antes da saga “Jogos de Guerra”, não lembro porque ainda não tinha colocado antes (desculpem!). Mas de qualquer forma isso não tem uma implicação maior para o entendimento de vocês, porque é uma minissérie foras das séries regulares de Batman, então não tem problema nenhum ser lida agora.
A leitura de hoje é “Batman: Morte e as Donzelas” (Batman: Death and the Maidens, roteiro de Greg Rucka e arte de Klaus Janson, outubro de 2003 a agosto de 2004)!

Line

DeathMaiden

Arte de PJ Lynch

Antes, uma pequena nota: o conceito de “Death and the Maiden” é um padrão encontrado nas artes do período Renascentista. Ele deriva das alegorias de “Dance of Death” (Dança da Morte) do período medieval, que retratam a universalidade das pessoas em seu derradeiro momento – todos somos iguais na morte, todos enfrentaremos os mesmos terrores numa dança macabra. A vida é frágil e passageira, e chega para todos.
A Morte e as Donzelas é um conceito bastante explorado em diversas artes: é o nome de uma pintura de Hans Baldung, Egon Schiele, Edvard Munch, de composições de Franz Schubert, um balé de Nikos Skalkottas, um filme de Roman Polanski, dá nome à biografia de Fanny Wollstonecraft, ao livro de Gladys Mitchell, e mais incontáveis referências.

001A HQ começa com um tenente notificando uma jovem mulher a respeito da morte de Vasily Vasilievich, que supõe ser seu marido. Ele morreu corajosamente numa explosão. A jovem ri debochadamente do tenente. Não… Ele não era seu marido. Tampouco seu irmão. Era seu bisneto. Seu último descendente.

002Os momentos de reminiscência de Batman, quando se lembra do fatídico dia em que perdeu tudo o que mais amou na vida através do cano da arma de um bandido, são sempre notáveis. Não poderia ser diferente aqui. Aqui, ele divaga sobre o fato de já fazer tanto tempo que aconteceu que ele está tendo dificuldades de lembrar do rosto de sua mãe. Me lembrei dos trechos iniciais de um dos meus livros preferidos, “A Sombra do Vento”, de Carlos Ruiz Zafón, em que o personagem principal percebe que a memória do rosto de sua mãe está se esvaindo. Bem, Batman é acordado por Alfred. Mais um dia em que é preciso salvar Gotham.
003Encontramos a mesma mulher do começo da história, mas há dois anos atrás. Descobrimos que se chama Nyssa. Ela está conversando com Ra’s Al Ghul, que conta sobre sua relação com Batman – tentara fazer dele o herdeiro de sua posição como Cabeça do Demônio, já que ele é o único ser humano digno de ocupar tal posição. Mas não só Bruce recusa como se torna seu pior inimigo, lutando contra ele e interrompendo a criação dos Poços de Lázaro nos lugares de grande concentração mística que seriam perfeitos para Ra’s. Ela ganhou um Poço de Lázaro dele (agora entendemos o diálogo inicial dessa HQ). Mas por que ele está contando essas coisas tão pessoais para ela? Ele precisa de sua ajuda – coisa que ele se nega a fazer. Nunca devemos subestimar alguém a quem o poderoso Ra’s Al Ghul recorre. Essa pessoa provavelmente dona de um grande poder.
004Para comprovar minha tese, vemos Ra’s Al Ghul recorrendo a Batman – invadindo a Batcaverna, na verdade. Poucas pessoas conseguem invadir a Batcaverna. Sabemos do incalculável arsenal militar e tecnológico de Ra’s – mas ainda assim, tenho minhas dúvidas se seria possível invadir a Batcaverna. Mas ENFIM, ele conseguiu. E pede a Batman um favor bastante precioso: que pare de matá-lo. Que o deixe construir seus poços, e assim macular o curso da natureza. Isso está fora de cogitação para o detetive, mas Ra’s oferece algo bastante único para Batman: um elixir alquímico capaz de conectar Batman aos mortos. Aos seus pais. A tentação mais antiga do homem: falar com os mortos. Encontrar os espíritos uma vez mais, depois de sua partida.

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Mas é realmente possível confiar em Ras? A proposta deixa Batman muito tentado. Reencontrar seus pais… Ver o rosto de sua mãe uma vez mais… Bruce toma sua decisão. E o desenrolar da decisão que toma é emocionante.
Ao longo da história, vamos conhecendo a história de Nyssa. Ra’s Al Ghul não aceitou o desacato que a mulher lhe fez, e planeja uma grande represália para ela. Nyssa conhece Talia em seu apartamento. E também vai até Batman, para alertá-lo das terríveis intenções de Ra’s. A mãe de Nyssa e Ra’s já tiveram um relacionamento, mas ela questionou seus métodos sanguinários que ele justificava como sendo para um “bem maior”. E assim surge Nyssa na vida de Ra’s Alghul. Toda a história de Nyssa está permeada com intervenções impiedosas de Ra’s. Ele parece não se importar com os mortos que deixa pelo caminho.
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Ela o encontra no fim de 1790. Ele a mata a primeira vez em 1794. Em 1941. Em 1945, num campo de concentração para mulheres. Em 1952. Matou a ela incontáveis vezes, e matou a seus filhos, netos e bisnetos – todos os que Nyssa já amou, incluindo sua própria mãe. Ela sequestra Talia. Uma vez. E mais uma vez. E de novo. Usando o Poço de Lázaro como instrumento. Para prepara sua vingança. As duas irmãs precisam se vingar. Receber a redenção pelas dores de seu passado. Mas qual o preço dessa redenção?


007Nessa HQ, Batman e Nyssa tem muito em comum: encontram e revivem pessoalmente as experiências dolorosas de seus passados. Batman coloca sua vida em perspectiva diante de seus pais, e reconta sua trajetória até o presente, questionando os meios que tem adotado para agir em nome da justiça – o sacrifício que Batman faz de sua própria felicidade é o que seus pais desejariam para ele? Nyssa tem uma dívida a acertar: uma dívida de sangue e dor, de um passado destroçado, de uma felicidade sempre destruída em nome do “bem maior”.
008Ambos tem nos seus pais as razões necessárias para suas lutas. Mas em sentidos diametralmente opostos.
O fim dessa história traz um evento que nunca poderíamos esperar. O fim de uma era. Somos levados a questionar se certas pessoas realmente aprendem com os erros e dores de seus passados.
Um momento interessante é quando Ra’s Al Ghul invade a Mansão Wayne sem ser convidado e Alfred o “convida a se retirar” apontando uma arma com munição de ketamina (um composto anestésico comumente conhecido como “tranqüilizante de cavalo”) e uma gramada para ele. Nunca devemos nos esquecer do passado militar de Alfred. É dele uma das frases mais impactantes dessa HQ:

“Você planeja sua vida com um propósito, independente do catalisador, Bruce. Simplificando, você é o Batman porque é quem deseja ser.”

Alfred

As partes que se passam no campo de concentração para as mulheres são realmente dolorosas e fortes.

CampoConcentEu particularmente gosto dos roteiros do Greg Rucka, e aqui também considero que ele acertou. O panorama do sofrimento de Nyssa ao longo do tempo é um grande mérito desta HQ. A arte oscila bastante: em alguns trechos é rica e proporcional, em outros trechos insere feições em desacordo com o contexto e retira alguns ossos do esqueleto dos personagens.

Espero que vocês gostem! A minissérie tem 9 volumes, coletados em um único link! Ah, uma nota: as numerações das páginas parecem estranhas, mas estão corretas. É porque as edições em que “Morte e as Donzelas” foram publicadas no Brasil não tinham só essas histórias, mas também outras.
Para fazer download no 4shared, é só clicar na capa. O link para download no MEGA está logo abaixo da capa!

COVER

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  1. Pingback: #71 – A Ressurreição de Ra’s Al Ghul | Batman Guide

    • Acha que damos pouco spoiler? Meus textos estão cheios de censuras pra não contar coisa demais.

      Vamos por partes. Primeiro, sim, eu concordo com você. Eu prefiro texto com spoilers, pois já que o objetivo é falar a respeito da coisa, creio que devia ser na íntegra. MAS gregos e troianos não costumam a se entender e não dá pra agradar a todos ao mesmo tempo.

      Segundo, em toda minha estrada no mundo dos quadrinhos, maior parte das pessoas que encontrei não curte spoiler, e aqui não é diferente. Inclusive já tivemos reclamação porque “contamos demais”. Então, quando escrevemos um review desses e tem spoiler, usamos uma “censura” que só dá pra ver o spoiler se a pessoa selecionar o texto.

      Foi o melhor “meio termo” que encontramos. Pode conferir nos demais textos. Até a próxima.

      • É Realmente você está certo.
        Me expressei errado, não quis dizer texto com spoilers, já que isso significa algo que ainda não conheço, quis dizer “a lição da história”, por exemplo.
        A minha sugestão é fazer um final, da mesma forma que fazem no começo, com as letras somente aparecendo, se forem grifadas.
        Contando não a história, mas o que foi essa experiência…
        Mas é claro, não é nenhuma crítica, só uma sugestão.

        • É totalmente válido, na verdade é até um dos objetivos principais, gerar debate. Infelizmente as coisas saem com mais cara de “vejam como é” do que com “vamos ver se é isso”. Claro, fazemos as coisas pra dar respostas, não pra gerar mais dúvidas, mas debates são muito bem-vindos. Exceto debates sobre as besteiras que o Morrison fala, disso a internet tá cheia.

          Ficamos gratos com sua presença, participação e sugestão para construção de melhor conteúdo. Até a próxima.

  2. Pingback: #85 – Renegados: O Abismo / Ruas de Gotham: Dinheiro do Silêncio (“Batman: Renascido” – 6ª Parte) | Batman Guide

  3. Pingback: Feliz 2014! | Batman Guide

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