#77 – Batman: Últimos Sacramentos

“Pobre Gotham City… Hoje ela precisa de seu Cavaleiro das Trevas, e ninguém sabe onde ele está. Ou se está vivo.”

Olá!
O texto de hoje é sobre uma saga que serve de ponte entre os últimos acontecimentos e um momento decisivo que acontecerá no próximo post. Veremos como Gotham está se virando durante a ausência de seu maior herói. Sejam bem-vindos a “Batman: Últimos Sacramentos” (Batman: Last Rites, roteiro de Grant Morrison, Paul Dini, Dennis O’Neil, Peter Tomasi e arte de Lee Garbett, Dustin Nguyen, Guillem March, Doug Mahnke, 2008. Na tradução da Panini recebeu o título de “Funeral para o Morcego“).

Para a leitura dessa HQ, recomenda-se fortemente que você tenha lido, ou pelo menos conheça em linhas gerais, as seguintes sagas:

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001Fazem parte dessa HQ dois volumes que estão inseridos na “Crise Final” também, a Batman #682 e #683 (que aqui no Brasil recebeu o nome de “Elegia para um Herói”. É uma retrospectiva sobre a carreira de Batman, mas não do modo como já conhecemos – ele introduz elementos controversos, novidades, conceitos inéditos e estranhos. É a oportunidade perfeita para Morrison adicionar elementos na cronologia de Batman, ressuscitar personagens que não são muito utilizados – como a primeira Batwoman, Betty Kane.
Como uma colagem de flashbacks de Batman em detrimento de uma leitura linear, vemos Batman e a ascensão de Dick Grayson de acrobata que perdeu os pais numa queda criminosa ao papel de Robin, que depois segue carreira como Asa Noturna. Em certo momento ficamos confusos quando ao que é passado e o que é presente, ou quem é o narrador da história – muito provavelmente Alfred, ou então a mente do próprio Batman? Vemos cada um dos momentos tristes de Batman – a perda de Jason Todd, os vilões maníacos que enfrentou, as pessoas que não pode salvar, todo o remorso que carrega. Mas também vemos um futuro que poderia ter existido caso Bruce não tivesse perdido os pais. Uma tentativa de implantar memórias falsas em sua cabeça.
002Logo entendemos porque estamos tendo essas visões fragmentadas e dispersas: trata-se do momento da Crise Final em que, por ordem de Darkseid, o Lump se esforça para roubar as memórias de Batman para implantá-las num exército de “Batmen”, que seria usado para lutar ao lado de Darkseid. Contudo, Batman carrega uma carga de remorsos, estresse, culpa e sofrimento tão grande que os clones não suportam isso em sua própria mente – e começam a arrancar os próprios olhos, se destruir e entrar em conflito interno. E depois disso acontece tudo que já lemos no texto da Crise Final.
Aos poucos, vemos os personagens reconstruindo suas vidas depois do desaparecimento/morte de Batman durante a Crise Final.

003Asa Noturna está resolvendo pendências deixadas desde “Descanse em Paz”. Seu acerto de contas com Duas-Caras é bastante intenso (achei engraçado como Asa Noturna é desdenhoso com Harvey e o compara ao Linus, um personagem do Snoopy que só anda com um cobertorzinho para se sentir seguro). Eles se odeiam desde que Dick era Robin, e essa rejeição mútua apenas cresceu com o passar dos tempos. Harvey promete uma coisa: ele tem grandes planos para Asa Noturna ainda. Grandes planos.
Dick Grayson, Alfred e Tim Drake tentam levar sua vida na Mansão Wayne de forma normal, mas agora sem a presença silenciosa porém vital de Batman. E embora todos tentem agir como se a vida continuasse, fica claro para nós que não é assim. Falta o essencial. Sobra silêncio. A lacuna que Batman deixou.
004A história chamada “Últimos Dias de Gotham” nos leva ao encontro de Millicent Mayne, uma atriz que vê sua vida ir do topo ao fundo do poço; é considerada “o rosto de Gotham”, por sua grande beleza e por ser uma benfeitora dos pobres de Gotham, até que Duas-Caras decide jogar ácido em seu rosto durante um baile de caridade. Duas-Caras está deixando a cidade mais caótica do que nunca na ausência do Cavaleiro das Trevas. E é hora de Dick Grayson ajudar. Ele está sobrecarregado, e ainda por cima desorientado pela ausência de seu professor e tutor. Quando Alfred lhe oferece um dos Batmóveis, ele recusa: “Não, obrigado. Eu… Eu não sou o Batman, e me sentiria estranho se dirigisse o carro dele.
006Grayson não se sente à altura de Batman. Ele se cobra demais, acredita que falha em absolutamente todas as suas decisões, não se acha minucioso o suficiente, vê falhas em seus planos. Sua mente está obscurecida, ele não está pensando direito devido ao que aconteceu com Bruce. E com o fato de ter que assumir responsabilidades que antes cabiam ao Morcego, falta a aptidão e experiência que tanto estamos acostumados a ver.

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Com a ajuda providencial de Alfred, Dick decide… Tentar de novo. Em certo momento desse arco, Asa Noturna visita o Beco do Crime para rememorar o que aconteceu com Batman – sobre como a .45 automática de Joe Chill destruiu a vida dos pais de Bruce e destruiu todo o seu futuro, ditou como seria sua vida. É um trecho de uma carga emocional indizível. Ele é eternamente grato a Bruce por ter dado um futuro a ele no momento mais triste de sua vida.

Dick se enxerga em Batman. Ele também perdeu seus pais em circunstâncias trágicas. Ao acender uma vela no Beco do Crime, em memória dos pais de Bruce e de seus pais. E se lembra de outra vela que acendera, no juramento que fizera com Batman ao se tornar Robin, muitos anos atrás.

“A luz dessa vela foi um farol para a alma de um jovem garoto… Me permitiu ver um caminho sem egoísmo e devoção. Devoção com um bem comum. E essa luz deve brilhar não importando o que aconteça.”

É emocionante vê-lo atendendo o Bat-sinal convocado por Gordon (que ao longo das noites vem incessantemente deixando o Bat-sinal ligado, numa tentativa de estabelecer contato com Batman). Diálogo interessante travado entre Gordon e o Harvey Bullock:

H: “- Ele vai nos ajudar em algo?”
G: “- Ele não é o Batman.”
H: “- Certo. O Batman não usaria as escadas.”

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Mulher-Gato está mantendo Thomas Elliot, o Silêncio, em cárcere privado, como vingança pelo que ele fez a ela no arco “Coração do Silêncio”. De início ele é confundindo com Bruce Wayne, o que poderia causar problemas para a Bat-família porque Thomas Elliot, embora tenha a aparência de Wayne, não tem nada do seu caráter. Ele faz uma participação interessante nessa história.
Outra participação notável é a de Ra’s Al Ghul, que quer saber dos lábios de Dick Grayson a verdade sobre a morte do “Detetive”. Ele considera a morte de Batman algo injusto, afinal, era ELE quem estava destinado a matar Batman. Ele diz para Asa Noturna, enfurecido: “Um herói do calibre do Batman não deveria perecer nas trevas. Um herói como Batman deveria ter sido assassinado na luz mais brilhante do dia para todo mundo ver.” (Realmente ele sabe como consolar as pessoas, não?)

Um pequeno detalhe: a história final de Robin se chama “Robin Morrerá ao Amanhecer”, como outra história citada no texto de “Descanse em Paz”. Ele recebe uma ameaça de morte junto de um texto enigmático que o chama de “Pequena ave” (Robin é o nome de uma espécie de pássaro). É um recado de Lady Shiva, uma ameaça de morte da maior assassina do mundo.
009Nesses dias em que Batman tem estado fora, Robin também está sobrecarregado: resolvendo problemas entre as muitas gangues de Gotham, tentando conter a violência e a criminalidade que assolam a cidade. Mas mesmo em meio a toda essa confusão, também sente a ausência de Bruce: “Se a vida é tão cheia, por que a caverna – a Mansão – parece tão… vazia? Por que eu me sinto vazio por dentro?
Ele começa a tecer o caminho de sua própria despedida: termina com a namorada, fala pela última vez com o melhor amigo, se despede da vida que conhece. Robin também tem sido bem afetado pela ausência do seu mentor. Todas as perdas que teve nos últimos tempos – os pais, Stephanie Brown (que depois volta), seu amigo Conner, até onde é possível aguentar essa carga? Quando se descreve, podemos confundi-lo com o próprio Batman:

“Se esconde atrás da máscara, cada vez mais profundamente no trabalho? Cada vez mais longe das pessoas que você se importa? Cada vez mais longe… De qualquer emoção humana real? Eu disse que nunca seria como o Batman. Obcecado. Fechado. Mas agora… Eu não sei se tenho outra escolha. ”

E as falas finais de seu arco são emblemáticas para o futuro da cronologia que estamos seguindo:

“Gotham precisa de alguém usando o manto. O candidato obviamente vai aparecer logo logo. Até lá, a cidade tem a mim. Depois disso…? O que vem depois? Eu estava esperando por isso. Eu acho que vivi para isso. Eu quero tanto isso. Mas não vou dizer a ninguém o quanto isso me excita. Logo… Vão conhecer o NOVO ROBIN!”

Esse arco é importante para percebermos como Gotham lida com o sumiço do seu justiceiro. E também como as pessoas de sua família reagem. Uma fala de Alfred sintetiza o que ele, Tim, Dick e os outros sentem a respeito dessa perda:

“[…] Não, Richard, não estou bem, mas nós vamos prevalecer, isso era o que Bruce gostaria que fizéssemos, não é?”

010Bruce criou um ambiente, uma mentalidade de força em seus aliados, que permitiram que eles continuassem seu caminho se um dia ele fosse forçado a partir. E foi o que fizeram. Eles prosseguiram. Porque a cidade precisa deles, precisa de Dick, precisa de Tim, precisa que Alfred os ajude.
Mas em pouco tempo a cidade perceberá totalmente que Bruce se foi. E quando esse momento chegar, o que fazer?

Richard Grayson é, talvez, quem esteja sentindo a maior dor com a perda de Batman. Ao revirar os compartimentos onde Bruce guardava seus trajes, Grayson faz as seguintes reflexões:

“Eu me sinto como se eu estivesse mexendo no guarda-roupas do meu pai. O guarda-roupas do meu pai morto. Procurando por respostas. Procurando por razões… porque você tinha que morrer agora. E mais do que eu queria admitir… Eu estou com raiva de você, Bruce. Estou com raiva por você ter deixado um buraco na roupa. Um buraco em nossas vidas.”

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Nesse arco conseguimos entrever perfeitamente como é uma Gotham sem Batman. O caos se instala com o evidente desaparecimento de Batman, como das outras vezes. Mas em todas as outras vezes ele voltava – e quando a cidade descobrir que, dessa vez, é definitivo? Ra’s Al Ghul é contra a decisão deles de manter a morte de Wayne oculta de Gotham:

“Gotham e o mundo deveriam estar celebrando a vida e a morte de um homem que os manteve fora da extinção incontáveis vezes, ao invés de acreditar que seu Cavaleiro das Trevas ainda patrulha a cidade!”

Acompanhamos todo o processo de estresse mental que Asa Noturna está sentindo com esse peso enorme sobre seus ombros, e como a Bat-família está lutando para se manter com o máximo de estabilidade possível quando o seu norte sai de cena. Jim Gordon também está muito afetado pelo que aconteceu; ao longo desses anos trabalhando com Batman, ele depositou uma grande confiança nele, e uma relação de que, juntos, seria possível limpar – ou ao menos diminuir – o crime na cidade.
O que fica claro para todos que estão vivenciando esse momento em Gotham é que Batman é necessário – senão na figura de Bruce Wayne, é necessário na figura de alguém. Porém, a pergunta mais dura de se fazer é: quem? Na eventualidade de Batman não voltar, quem assumirá esse papel? Quem está à altura?

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Espero que vocês tenham gostado da minha resenha, mesmo curta. E preparem-se para o próximo texto, que será do Augusto. Será, resumidamente, ÉPICO!

10 edições compiladas em um único link!

CapaDownload no MEGA – Últimos Sacramentos

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  1. Sou muito fã do Batman, Robin, Asa Noturna e etc. Mas sou muito leigo nas HQs, li muito poucas. Pra quem está começando, por onde vocês acham melhor começar a ler? Onde comprar? Gosto de colecionar e não queria baixar.

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