#94 – O Cavaleiro das Trevas: Aurora Dourada

“Gotham sob a chuva. Sempre me faz pensar em meus pais. É como uma batida contínua no coração. É o momento em que você perde todas as coisas que não poderá ter de volta. Faz você valorizar a aurora dourada”.

Este era um post que eu estava esperando a hora de fazer. A saga “Golden Dawn” foi o arco de estréia do novo título da DC no início de 2012, chamado “The Dark Knight”. O título veio praticamente junto com o retorno de Bruce Wayne às histórias.
(Vocês podem conferir detalhes sobre todo o processo que Bruce Wayne sofreu lendo os posts “Crise Final”, “Descanse Em Paz”, “Descanse em Paz: O Capítulo Perdido”, “Últimos Sacramentos”, “O Tempo e o Batman”, “Estrada para Casa” e finalmente “Corporação Batman”, entre outros aqui postados).
A proposta da série “The Dark Knight” é o Batman sozinho. Vocês raramente (muito raramente MESMO) vão ver o Asa Noturna, ou Robin, ou Capuz Vermelho. No máximo o Alfred, porém dificilmente algum outro aliado. O foco é quase absolutamente o morcego SEM a Bat-família.
Essa é a primeira saga dessa série que já está circulando há anos, infelizmente numa decadência de artistas, mas em todo caso, ainda um título original.
Golden Dawn pra vocês, traduzido pela Panini como Aurora Dourada.

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O artista principal é o David Finch, tanto no roteiro quanto nos rabiscos. A arte do sujeito é uma peça de luxo, quem dera ele estar desenhando tudo da série principal do morcego desde que o reboot começou. Sim, estou mesmo dizendo que nem o Greg Capullo com 5 clones dele próprio ajudando dão conta de fazer a arte do Finch.
E quem dera ainda ser o desenhista da Dark Knight atualmente. Essa série já mudou de desenhista 2 vezes até o presente momento, ao sair o Finch, entrou o Ethan Van Sciver, e após ele o Zsimon Kudranski. Nem juntando os dois faz um David Finch, mas enfim.
Acredito que de uns anos pra cá, se eu tivesse que citar três nomes que realmente AGRADARAM desenhando Batman, David Finch está entre eles. E considerando a DC atualmente, com os desenhistas que lá estão, arrisco a dizer que David Finch foi O desenhista do Batman atualmente. Melhor versão, na minha opinião.
Vocês que estão acompanhando e são detalhistas devem ter reparado que, quando o Bruce voltou, tinhamos dois Batman com o uniforme praticamente igual. As diferenças eram mínimas pros desatentos. O cinto de utilidades do Grayson era mais fino e tinha a “fivela” com formado de morcego, e as luvas do uniforme dele tinham aparencia de braceletes, com uma visivel divisão horizontal no meio do antebraço. Enquanto o uniforme do Bruce era o de sempre.
Mas com o inicio da Batman Inc., Bruce mudou de uniforme. O uniforme novo é algo bem próximo do que temos nos Novos 52. A cueca por cima da calça se foi, e como eu custei a acostumar com isso. Pra mim foi simples questão de costume, mas cheguei a ver comentários aí mundo a fora que diziam coisas como “dá a impressão que o cara tá sem roupa”.
Ok, fora a cueca, outra visivel mudança foi o simbolo no peito. Essa eu custei tanto a acostumar que eu REALMENTE não acostumei, e até hoje tô feliz de terem tirado isso pros Novos 52. O simbolo do Morcego preto estampado na blusa cinza adotado lá pelos anos 70, mudou pra uma versão moderna da velha elipse amarela. Isso ai, ao invés dos caras olharem um avião e pensarem em andar PRA FRENTE criando uma nave, não, eles olham o avião e colocam um par de turbinas num pterodáctilo. Uma vergonha, mas é opinião minha, claro.
Já expliquei meu ponto diversas e diversas vezes quanto a elipse amarela. Representa a fase abobalhada do Batman, a tal época em que os vilões só faziam armadilhas, toda exclamação do Robin começava com “Santa” e todos os golpes tinham onomatopéias tipo “SOC”, “POW” e “TUM”. Essa época ridícula até hoje parece estar tatuada na mente de metade do planeta.
Já não bastou trazerem de volta a elipse, ainda fizeram ela iluminada com algum tipo de energia. Tenho duas teorias, ou quiseram imitar a bateria Ark do Homem de Ferro, ou arrancaram o Batsinal do telhado do Departamento de Policia e puseram no peito do Bruce.
Tudo bem, a história do símbolo e da Incorporated mostra que a intenção dele foi justamente sair das sombras e transformar “Batman” em uma companhia de proteção do mundo. Privatizando a paz, como o Tony Stark, novamente. O Morrison é um sujeito genial, já comentei, né? Não? Deve ser porque nunca fiz isso.
Bom, eis o novo uniforme do Batman (uniforme este que também está presente no jogo “Arkham City” nas skins alternativas). O morcego retornou com tudo, e com tudo novo. Vamos então ao enredo/narrativa da obra. Farei as observações mais pertinentes sobre a arte ao longo do texto.
001A história começa no passado, na infancia de Bruce Wayne. Primeira linha de pensamento do Batman no primeiro quadro: “Dawn Golden”. Na segunda linha já fica explicado que trata-se de uma menina (que diabos a DC tem com ruivas…) que Bruce conheceu em sua infância. Aparentemente a menina é filha de outra familia da alta sociedade de Gotham.
Podemos ver Thomas Wayne mandando Bruce brincar com a menina no meio de um dos salões da Mansão Wayne enquanto ele próprio conversa com um homem chamado Aleister, provavelmente pai de Dawn. Bruce não gosta da tal garota.
Logo depois, os dois vão brincar do lado de fora da mansão. Que bela paisagem, a mansão ao fundo, as árvores, campo, rio… Quase um Eden. David Finch já começa a detonar com a concorrência só em desenhar a água do rio. Quem quiser conferir, olhe ali na parte mais a direita do rio, tem o reflexo marrom de uma árvore na água, imagem perfeitamente distorcida pelo movimento da água. Esse quadro foi um presente.
Bruce está com uma pipa que seus pais trouxeram de uma viagem, ele entrega pra Dawn brincar um pouco, e logo nos primeiros momentos ela solta a linha e deixa a pipa ir embora. Bruce revoltado (e ainda sem noção de que é um ricasso e que uma pipa não custa nem meio dólar) corre atrás de Dawn furioso, e ao tentar pegá-la, acaba tomando uma volta da menina, que o domina contra o chão.
Nesse momento ele notou que a menina não era “tão má” assim. Geralmente é o que acontece com qualquer homem quando uma ruiva bonita o joga no chão e monta nele. O flashback encerra por aí e então chegamos ao presente, mais exatamente no departamento de policia, onde temos Gordon e sua equipe. Descobrimos nessa parte que Dawn desapareceu e que não há pistas de onde está, nem de quem sequestrou.
002Cena seguinte, algum beco de Gotham em uma noite chuvosa (quase nunca viram isso, né?), mais especificamente uma porta em especial. O cenário está completo. A parede de tijolos que está feita de traços pretos na área iluminada e de branco na área sombria, os canos com sujeira e ferrugem, pixações, lixo, relógio de luz… Bem pensado nos mínimos detalhes.
As linhas de pensamento do Batman indicam que ele está na chuva, do lado de fora, esperando alguém que está lá dentro. Alguém que ele poderia ir buscar lá, mas que seria deveras mais dificil, pois pegar o cara sozinho do lado de fora já seria complicado o suficiente.
Quando o Batman afirma uma coisa dessas, de certo ele se refere a um meta-humano ou monstro, e não foi diferente dessa vez. Um grande homem de chapéu e casaco atira outro porta afora todo arrebentado, o grandão trata-se de Waylon Jones, o Crocodilo.
O rosto dele está um pouco diferente do usual, sem o “focinho”, crânio com formato muito mais humano, apesar da aparência muito mais próxima da de um réptil. Temos alguns bons detalhes no quadro do rosto do Croc se revelando. Olhem os dentes, dá quase pra imaginar a textura só de ver os baixo relevos, curvas e sombras empregadas.
003Croc sai no meio da chuva, e finalmente a imagem de Batman surge. Em meio a chuva (e que chuva bem feita, até com água escorrendo pelos canos), a única coisa iluminada é o novo logotipo do morcego no peito. Croc está usando uma versão genérica da “Veneno”, a droga que o Bane usa pra ficar mais louco que strogonoff de basalto (salve o Anônimo), ou seja, está mais forte que nunca. Nos jogos da série Arkham (Asylum e City) a venom tem nome de “titan”. Não façam confusão.
Batman está determinado a descobrir onde Dawn está. O morcego desce igual um zero (avião que os japoneses usavam na segunda guerra) kamikaze e entrou de pé esquerdo na lata feia do Croc. O oponente estava mais forte e veloz do que o esperado, podendo assim ainda atacar com sucesso o Batman.
004Quase que o morcego leva a pior, contou com a sorte pra tombar o Croc. Um interrogatório rápido e ele descobre que Croc realmente encontrou a Dawn, e a vendeu pra um tal de Lars. Ao encontrar Gordon, Batman descobre que o tal Lars já estava boiando no rio antes dele conseguir a informação.
Finch deu uma caprichada na bat-caverna. Ficou um trabalho de primeira, uma página dupla onde couberam todos os principais elementos. A carta do Coringa, as vitrines com uniformes de morcego e o uniforme do Jason, o batmovel, o batcomputador, o T-rex, a moeda gigante… Impressionante a disposição que o cara tem de desenhar.

Batcaverna

Clique para aumentar.

O tal Lars que morreu era ligado a um clube, e o homem morcego vai até lá pra ver se descobria algo mais. Entrou no lugar, arrombou o cofre e dentro encontrou um antigo cordão de Dawn. Porém nem tudo é boa notícia, ele foi surpreendido por capangas do Pinguim e o próprio Pinguim em pessoa, e do lado de fora, ele perdeu o comando do Batmóvel. Que roubada, hein?
005Nada disso, nós apreciamos um novo equipamento do morcego (equipamento cujo nome desconheço). A princípio achei que ele tivesse disparado a bat-corda, mas o lance ricocheteia pelas paredes/teto/chão, fazendo uma enorme rede pela sala, e quando alguém encosta, a rede fecha e amarra todo mundo. Deveras útil.
Batman partiu atrás do Pinguim pelas escadarias. Adivinham quem é mais rápido? Pois é. Batman jogou as boleadeiras de morcego nas pernas do Pinguim só por jogar, óbvio que o alcançaria. Começam as perguntas sobre Dawn. O primeiro quadro é lindo, o Batman está desenhado como deveria ser desenhado sempre.
O interrogatório começa ali nas escadas, Batman perde o controle temendo por Dawn, quebrou braços e pernas do Pinguim, Alfred pela câmera do capuz fica assustado com a violência do morcego, mas o Croc aparece do nada e acaba com a “1035º Festival da Ortopedia” promovida pelo filantropo Bruce Wayne. E a mesa virou feio, Croc enfiou o Batman na parede de um jeito que eu ou você voltaríamos com 90% da alma no mundo dos mortos.

Legs
007O Batmóvel foi levado embora, mas ao contrário do que parecia talvez ser uma ação conjunta de alguém com o Pinguim, na verdade era uma garota. Ela entrou no carro se vazou da cena. Vemos também que Croc está trabalhando pro Pinguim.
Temos um bico do Etrigan, o Cavaleiro Demônio na história, qual papel ele tomará na trama? Veremos.
Batman acorda amarrado numa cadeira cheia de bombas em volta, ligadas aos batimentos cardíacos do morcego. Os poucos segundos que teve após despertar ele usou para lembrar o que aconteceu a ele, e logo leva outra porrada do Croc. Pinguim faz uma vídeo-conferência direto de seu leito de hospital, mostrando uma imagem de Dawn Golden (que nós não vemos). Se o batimento aumentar demais, já era, explode tudo.

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#89 – O Tempo e o Batman

“O amanhã pertence ao Batman.”

Olá!
Como as coisas se complicaram nessas últimas semanas… É meu penúltimo semestre da faculdade e o laboratório onde eu trabalho esteve envolvido em grandes seminários e congressos que exigiram muito de mim e de todas as meninas que trabalham comigo. E o resultado foi mais de um mês sem postar aqui no Batman Guide! Peço desculpas a todos vocês por esse atraso. Entretanto, nem tudo são más notícias: são minhas primeiras férias de trabalhos e estudos desde o começo de 2012! Desde então, quando eu não estava trabalhando, estava estudando, e vice-versa. Agora estou de folga dos dois! Vamos tentar compensar o tempo perdido então?

A HQ de hoje foi publicada na Batman #700, em uma edição gigante de aniversário. Conta com o roteiro de Grant Morrison e a arte de Tony Daniel (pgs. 3-10), David Finch (pgs. 11-18), Andy Kubert (pgs. 19-27) e Frank Quitely (pgs. 28-33). Além disso, tem uma galeria de imagens que conta com artes de Guillem March, Dustin Nguyen e Bill Sienkiewicz, entre outros. Sim, esse é o grupo de DINOSSAUROS responsáveis por essa história. Eu tenho a impressão que você não deveria deixar de lê-la.
Aprecie “O Tempo e o Batman”! (“Time and the Batman”, agosto de 2010)!

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Você, leitor do Batman Guide, sabe o que acontece quando Grant Morrison está no roteiro de uma obra. É hora de abandonar alguns conceitos pré-estabelecidos: tempo, espaço, consciência, realidade, sonho. O conceito que você precisará redefinir para esta HQ é, como o próprio nome da história diz, tempo. O templo é flexível.
Como comemoração da edição #700, o que temos é uma viagem pela trajetória do Morcego ao longo dos exatamente 40 anos de história. Cada período da história de Batman é homenageado com primor e detalhismo que irão agradar aqueles que, como nós, tem interesse no caminho que o Morcego percorreu desde o caráter brincalhão da Era de Prata até seu estabelecimento como o Cavaleiro das Trevas sério e implacável que ele se tornou.
Introduções feitas, vamos para a história.

001Primeira parte: o “Ontem”.
Batman (Bruce Wayne) e Robin (Dick Grayson) estão sendo mantidos reféns por Coringa, Mulher-Gato e outros vilões como Chapeleiro Louco, Charada e Espantalho. A arte dessa parte é riquíssima em detalhes. Vou pedir para que você leia com cuidado um dos enigmas que Charada faz em uma dessas páginas. Ao identificá-lo, tente respondê-lo mentalmente.
Os heróis estão sendo submetidos a uma máquina de hipnose temporal. Trata-se de uma Máquina de Possibilidades; nas palavras de Batman, ela “gera visões de como as coisas poderiam ter sido”. Mas nem por um minuto vocês devem se esquecer que estamos falando do Goddamn Batman: levará três minutos para a máquina ser reiniciada pelo doutor Carter, e ele avisa aos vilões que estará livre das algemas em apenas dois. Coringa não acredita nisso. Ele acha que conseguiu quebrar Batman, “atropelá-lo” – lembre-se da sua participação nos eventos de “Batman: A Luva Negra”. Inconformado, ele faz uma promessa: ele irá enviá-lo de volta para o grande dia em que Batman nasceu, e dar a Batman a chance de desfazer a sua própria criação, abortando os demônios que o levaram a ser o que é. Através do Livro de Piadas do Coringa.
002Bem otimista esse Coringa, né. Ele realmente acha que o Batman ia deixá-lo brincar de deus dessa maneira? Claro que o Morcego consegue se desvencilhar do plano de Coringa e mandar os vilões para os cuidados de Gordon.
Entretanto, na volta para casa, Batman e Robin começam a conversar… E se Batman tivesse realmente voltado no tempo e impedido Joe Chill de matar seus pais? (Isso me lembrou um dos paradoxos das viagens no tempo, mais especificamente o Paradoxo do Avô, em que se discutem as implicações de uma pessoa voltar no tempo e matar seu avô, que por sua vez não conheceria sua avó, ou seja, essa pessoa não existiria). Entretanto, essa possibilidade não tira o sono de Bruce porque, segundo ele, “somos o que somos e não podemos mudar o que já aconteceu”. É uma filosofia que eu, particularmente, adoto para a vida.

003Segunda parte: o Hoje.
Anos depois. Agora Batman é Dick Grayson, e Robin é Damian Wayne. O doutor Carter Nichols está morto. Um tiro no coração, mas sem sinal da arma. Um sorriso no rosto. E o capacete da Máquina de Possibilidades ao seu lado. Desconfiado, Grayson acha que seria uma boa idéia aparecer no Beco do Crime, onde os pais de Bruce morreram – e o conceito de Batman nasceu – para levar flores em homenagem a Martha e Thomas. Mas como é pedir muito que Batman e Robin tenham UM minutinho de paz em Gotham, eles se deparam com uma legião de bandidos fazendo um arrastão na cidade. Ah, os bons e velhos quadros de porradaria, dentes quebrados e maxilares deslocados, uma cortesia de Batman e Robin.

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004Aparecem uns vilões a mais que contam sobre um leilão ilegal do Pinguim e Batman avisa, sorrindo, que está de olho neles. Na boa, acho que eu me assustaria menos levando umas porradas do Batman do que sendo alertada por ele com esse sorriso perfeito meio maníaco. Esse jeito do Dick Grayson desagrada a alguns, mas é indiscutível que só piorou o medo que os vilões tinham de Batman.
005-2Você vai notar que, da página 18 à 19, a arte sofre uma mudança significativa; a arte fica a cargo de Andy Kubert. Particularmente, eu não curti o desempenho dele nessa HQ. Ele fez os personagens com queixos mega-projetados para a frente e os lábios inferiores muito evidentes. Fica meio difícil de enxergar a seriedade nas coisas com um Batman fazendo beicinho. Mas tudo bem, ninguém acerta o tempo todo. Dick postula sobre a morte de Charter: foi suicídio. Um suicídio com um tiro no coração e sem sinal da arma? Oh, well, quem sou eu para questionar o Batman, não é?

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