#75 – Batman: Descanse em Paz

“Bem-vindos a Gotham City. Claro que ninguém nunca disse que seria fácil destruir o Batman. […] Mas este auto-intitulado bem feitor, esse aristocratazinho arrogante e mimado está prestes a ter um merecido e duro despertar. […] O que estamos prestes a fazer será uma obra de arte. Nada menos que a completa e total ruína de um nobre espírito humano. “

Olá!
Espero que tenham gostado do texto da Crise Final, escrito pelo Augusto.
Até esse momento, eu e ele viemos construindo um caminho, uma “estrada” para a HQ que venho apresentar hoje até vocês. E finalmente chega um dos momentos cruciais para o Batman Guide, e um dos momentos definitivos para a cronologia do Morcego: “Batman – Descanse em Paz” é a HQ de hoje.

Para a leitura dessa HQ, recomenda-se fortemente que você tenha lido, ou pelo menos conheça em linhas gerais, as seguintes sagas:

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No roteiro temos Grant Morrison e na arte nomes como Andy Kubert, Jon Van Fleet, JH Williams III e Tony Daniel – só os “dinossauros” da DC Comics. Antes de começar, uma pequena citação de Morrison para a Comic Book Resourcs, a respeito do destino de Batman em “Descanse em Paz” – se era definitivamente o fim do Bruce Wayne. A tradução é minha, mas você pode ler o original aqui:

“Sim, mas como eu digo: é bem melhor que a morte. As pessoas tem matado os personagens no passado, mas pra mim, isso meio que encerra a história! Eu gosto de manter a história girando e se transformando. Então o que eu estou fazendo é um destino pior que a morte. Coisas que ninguém nunca imaginaria acontecer com esses caras.”

Um segundo detalhe que ficou um tanto quanto escondido na tradução de “RIP” para “Descanse em Paz”. Como você deve saber, a sigla “RIP” é o acrônimo de “Rest in Peace”, que é literalmente “Descanse em Paz”. Então qual é o problema? É que depois de muitos eventos, foi revelado que a sigla “RIP” não significava exatamente isso, e sim outra expressão em inglês. Revelarei isso para vocês posteriormente. Caso você queira saber direto o motivo, você pode ler nesse texto (vários spoilers!)
Posto isso, vamos para a análise das 20 edições que compõe “Batman: Descanse em Paz”.

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Começamos com o volume “Meia-Noite na Casa da Dor”, que é uma espécie de prelúdio para os eventos que se seguirão. Você se lembra da minha resenha sobre “A Luva Negra”? Terminamos com Bruce Wayne se revelando para Jezebel Jet: ele é Batman. De fato, algumas outras mulheres de sua vida já souberam dessa ligação: Silver St. Cloud (uma mulher com a qual se envolveu na série nos anos 70), Sasha Bordeux. Um detalhe a ser notado é que nos relacionamentos anteriores de Batman ele jamais se “entregou” tanto assim, mostrou suas vulnerabilidades. Um Batman com uma paixão assim, quase adolescente… Isso é possível? É como se ele sempre tivesse amado Jezebel Jet (lembre-se disso posteriormente). Devido a esses fatores, Tim Drake está preocupado com a sanidade mental de Batman, diante dos acontecimentos recentes . Ao discutir isso com Alfred, o fiel mordomo afirma que as grandes habilidades físicas e mentais não permitiriam que Bruce Wayne se perdesse em loucura.

“Você entende que patrão Bruce tem uma visão clara da busca pela perfeição humana a qual constantemente empenha-se. O domínio físico absoluto das artes marciais, ginástica e ioga, as habilidades dedutivas e lógicas dos principais filósofos, cientistas forenses e detetives, o entendimento, discernimento e objetividade moral dos supremos adeptos do zen… Devo continuar? […] Ele é uma mente como nenhuma outra. Eu tenho sérias dúvidas se algum de nós irá compreender completamente suas decisões, mas nunca devemos subestimar sua força e resistência.”

002Contudo, fica muito claro para nós que talvez essa não seja a realidade. Batman começa a se perder em meio aos seus próprios pensamentos, em meio as suas idéias, suas concepções. Por favor, não se esqueça desse fato do qual eu venho falando desde “A Luva Negra”: a sanidade mental de Bruce Wayne está cada vez mais deteriorada, fragmentada, o limite entre e o que é real e o que é ilusão está cada vez menos nítido.

003Bruce e Jezebel recebem um estranho convite: “A Luva Negra concede um convite à senhorita Jezebel Jet e ao senhor Bruce Wayne… O tema desta temporada: danse macabre”.
Enquanto isso, no Asilo Arkham, Coringa é submetido a um teste de Rorschach – você vai se lembrar da edição “O Palhaço à Meia-Noite” da HQ “Batman e Filho”, em que Coringa só enxerga dor, morte, tripas, sangue e destruição. Aqui não é diferente: por alguns instantes, vemos como Coringa enxerga as coisas, pessoas mortas e sangue por todo o lado. E instantes antes antes do efeito dos calmantes passarem, ele é convidado por alguém em nome de Luva Negra, para “a dança da morte do Batman”.

Vamos fazer uma pausa. Eu gostaria que você percebesse um padrão em alguns momentos dessa história: a presença do padrão de cores vermelho e preto.
Na verdade isso vem ocorrendo desde “Batman e Filho”: a coloração do céu no momento em que Coringa leva o tiro. O Batmóvel. Jezebel Jet, novo amor de Bruce Wayne: uma mulher negra com os cabelos vermelhos.
Em “A Luva Negra” esse padrão se repete inúmeras vezes durante a formulação da teoria para destruir Batman. Inúmeras roletas de jogos de azar aparecem, sempre vermelhas e pretas.
Por que existe essa sugestão?
Vamos retornar à história “O Palhaço à Meia Noite“, contida em Batman e Filho. Veja esse quadro:

Red and Black

Vamos também dar uma olhada nas páginas iniciais de “Crise Final”. Batman também percebe essa combinação que aparece várias vezes, e então vai até o Asilo Arkham investigar isso junto a Coringa. Leia essa sequência.
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De uma maneira simplificada, vermelho e preto significam a luta entre a vida e a morte, entre o “bem” e o “mal”, e essa sugestão de conceitos dá a Batman uma idéia do que ele vai enfrentar, o tempo todo.
Outro conceito com o qual você vai se deparar é a “Mão do Morto“, (“Dead Man’s Hand”). Essa é uma jogada de pôquer que consiste em um par de áses e um par de 8. Porém essa não é uma simples jogada, há uma lenda por trás dela; dê uma lida nesse trecho (Fonte)

“Em 2 de agosto de 1876, o jogador de pôquer profissional, pistoleiro, advogado e trambiqueiro Wild Bill Hickok foi até um saloon na cidade de Deadwood, Dakota, para faturar uns dólares em cima dos locais. Infelizmente, para ele, não achou uma cadeira vaga de costas para a parede e de frente para a porta, onde costumava sentar-se por precaução.
Interessado no jogo, ele se contentou com uma cadeira de costas para a porta. Má ideia.
Logo após receber um par de ás e um par de oito, todos pretos, um colega de profissão seu se aproximou por trás e o fuzilou na nuca. Como ele era uma espécie de celebridade no Velho Oeste, jornais publicaram várias matérias falando do sujeito e do jogo, com ênfase nas cartas na mão dele, que se tornariam sinal de mau presságio.”

Voltemos a “Descanse em Paz”. Na edição seguinte, “Batman no Submundo”, o Morcego está enfrentando um novo vilão mascarado de Gotham (mais um?) para saber o que todos nós nos perguntamos: Quem é o Luva Negra? Mas aparentemente aquele criminoso meia-boca não está envolvido com o Luva Negra. Gordon duvida de Batman, e dessa entidade/organização na qual ele anda insistindo tanto nos últimos tempos.
Enquanto isso, num prédio obscuro de Gotham, Dr. Hurt está combinando um novo plano contra Batman. Será um plano grandioso. Uma obra de arte, nada menos que “a completa e total ruína de um nobre espírito humano”. Questionado por um dos vilões se seria possível concluir uma tarefa que é tentada pelos inimigos de Batman há anos, Dr. Hurt responde: “Ninguém o conhece melhor que eu.” O método utilizado será a indução da frase Zur-En-Arrh, a frase gatilho implantada na mente de Batman anos atrás. Um botão, e Batman se autodestruirá.

Ao ver a capa das edições, perceba que Batman parece cada vez mais… “Afundar”. Assim como sua mente, louca e incerta. Ele está cada vez mais mentalmente instável, e você observará isso na bipolaridade das reações que tem ao conversar com Jezebel, por exemplo. Ela começa a discursar que talvez seja melhor ele superar o trauma da morte de seus pais e abandonar todo aquele “império” construído sob sangue, violência e tristeza. Esse quadro retrata como Batman se sente cada vez mais sufocado, engolfado por uma mente fragmentada, vulnerável. Todo o sofrimento parece chegar cada vez mais para cima dele, avolumar-se sobre suas costas.

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004É quando Jezebel sugere que A Luva Negra é… O próprio Bruce. E sua teoria faz sentido: quem conhece melhor que ninguém todas as fraquezas de Batman? Quem é o único humano páreo para um combate corpo-a-corpo com Bruce Wayne? Quem também adora mistérios, charadas, e tem tantos recursos bélicos e logísticos para declarar uma guerra contra Bruce Wayne, além dele mesmo? Mas ele não quer sucumbir. Ele não quer. Tanto que ele ignora uma série de documentos sobre esses casos – eles vivem sendo deixados em sua mesa por Alfred, esquecidos (!) por Bruce.

E essa edição termina com Batman tendo um colapso e sendo atacado pelo Clube de Vilões, assim como seu fiel mordomo Alfred.

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O próximo capítulo se chama “Zur-En-Arrh”. Certo, vamos parar um pouco nossa resenha para esclarecer um pouco sobre “Zur-en-Arrh”, recapitular seu surgimento e compreender seu significado.

005Já se sabia que Batman não estava em condições de aguentar o estresse mental a que é submetido todos os dias desde muito pequeno. Então, como você vai se lembrar da HQ “A Luva Negra“, o Dr. Hurt torna-se uma espécie de “especialista” em Batman, e ao estudar sua vida, entende que o que dá origem a Batman é o trauma, a violência que sofreu, as dores recorrentes do seu sofrimento, e de uma decisão de não tomar isso de maneira passiva. E então, em conjunto com o exército e o Departamento de Polícia de Gotham, Dr. Hurt conduz um experimento em que cria três “versões” de Batman para substituí-lo quando sua mente entrar em colapso definitivamente. Contudo, essa experiência não passa de um pretexto para que ele induza Batman a experimentos psíquicos e coloque nele a frase-gatilho “Zur-en-Arrh“. E o que diabos é uma frase-gatilho?
A frase Zur-En-Arrh é uma ferramenta que destrói a força de Batman, dispara nele um estado de fragilidade mental e consequentemente física – para que exponha sua fraqueza Como ele diz nessa HQ: “Os Meios extremos que o nosso garoto usou para se fortalecer são fortes indicadores da fraqueza que ele sente que precisa superar. Essa Fraqueza ainda está dentro dele”.
Agora você me pergunta porque dessa palavra, e não qualquer outra do dicionário de qualquer língua do mundo. Bom, eu vou te contar isso no final do texto.

Há uma história publicada na Batman #113 chamada “Batman – O Superman do Planeta X,” – você pode baixá-la clicando aqui. Batman, tendo inalado uma certa quantidade de gás tóxico liberado pelo Dr. Milo, fantasia com um sósia de outro planeta. O planeta se chama “Zur-En-Arrh”, e o Batman de lá é mais rápido, mais esperto, mais sagaz, mais capacitado, quase perfeito. Ou seja, era a perfeita materialização daquilo que ele mais desejava, a perfeição e plenitude.

Bom, agora que explicamos a origem dessa frase-gatilho, sabemos a armadilha a que Batman estava submetido e o quão perigoso seria o momento em que essa frase fosse disparada na cabeça de Wayne. E agora ele sucumbe à loucura de uma vez.
Bruce Wayne está perdido em Gotham City. Ele não faz a mínima ideia de quem seja, de onde veio, sua identidade secreta. Ele não perde todas as suas habilidades, como por exemplo a sua capacidade de defesa física, mas ainda assim não conhece mais sua identidade. Agora é a parte em que você me pergunta onde estão Alfred, Dick e Tim Drake. Entretanto, tudo havia sido muito bem planejado por Dr. Hurt: ele conseguira impedir todos aqueles que poderiam resgatar e salvar Batman. Alfred foi abatido agressivamente pelo Clube de Vilões. Dick Grayson foi fortemente drogado e provisoraiemente jogado no Arkham como se fosse um criminoso. O único que milagrosamente consegue fugir é Tim Drake, que se digna a dar uma olhada nos arquivos dos Casos/Arquivos Estranhos, que Batman vem ignorando por tanto tempo. Lá ele encontra referências a histórias das épocas mais antigas de Batman (um oferecimento de Grant Morrison). Descobre que o pai de Bruce, Thomas, já havia se vestido como um Homem Morcego numa festa.

006Vagando por Gotham City, Batman encontra Honor Jack, um misterioso homem que o entrega uma Bat-Rádio, um dispositivo que lembra as Mother Box descritas pelo Augusto no texto da Crise Final. Entretanto, uma revelação questiona o comprometimento mental de Wayne: ele descobre que Honor Jack havia morrido na noite anterior ao momento em que o encontrou.
Depois disso e de saber que precisa se localizar no mundo, o errante Bruce Wayne precisa começar sua experiência como ser humano do zero. É hora de renascer. Como o Batman de Zur-en-Arrh. O personagem de Bat-Mirim é um duende alienígena da 5ª dimensão, uma espécie de último elo entre o Batman de Zur-en-Arrh e a realidade.

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Ganhador do Sorteio EMPÓRIO HQ: “Batman – O Cálice”

Olá! 😉
Já chegou a HQ que o Roberto Ribeiro ganhou no sorteio promovido pela Empório HQ, da edição de luxo da revista “Batman – O Cálice”! E ele mandou a foto:

Roberto

Valeu, Roberto!
Se você não ganhou, não fique triste! Não deixe de conhecer a Empório HQ, os preços de lá são realmente muito bons. Essa semana passei por lá e comprei a saga “Mulher-Gato” por apenas R$ 5, em ótimo estado! Também comprei uma Elsewords bastante interessante chamada “Terror Sagrado”, por R$ 3! E o atendimento é muito bom também, eles te ajudam a achar qualquer saga no acervo deles, que contempla também mangás (coleções completas, inclusive) e DVDs. São atenciosos e te deixam bem à vontade. Eu não estou sendo paga nem recebendo revistas para falar isso, é que eu gosto muito dessa loja!

E fique ligadinho no Batman Guide, vai ter outro sorteio muito em breve!

RESULTADO DO SORTEIO Empório HQ: “Batman – O Cálice”

As histórias de Batman não costumam abordar a temática religiosa. Aliás, há diversos tópicos de discussão sobre a religião de Batman, você pode ler alguns clicando aqui, aqui e aqui.
Só por isso já podemos criar expectativas a respeito de “Batman – O Cálice”.
Já “O Santo Graal” é recorrente na literatura: esse tema desperta a imaginação das pessoas. A “Lenda do Santo Graal” trata sobre um cálice que teria sido usado por Jesus Cristo na Última Ceia, e a que são atribuídos poderes mágicos e sagrados. Primeiro como lendas e depois como relatos historiográficos, desde o século 12, quando foi citada pelo francês Chrétien de Troyes. A figura de José de Arimatéia foi definida como primeiro detentor (que recolhera o sangue de Jesus com esse cálice) e encarregado de proteger esse objeto. Desde então, uma série de romances medievais se propõe a recontar a trajetória desse objeto desde Jerusalém até a Inglaterra – e é procurada pelo Rei Artur e pelos Cavaleiros da Távola Redonda, para devolver a paz ao reino de Camelot.
Enfim, eu poderia falar mais e mais sobre essa lenda que já inspirou tantos filmes, livros, documentários, pinturas, músicas, quadrinhos e tudo mais, porém acho que já deu pra sacar que nessa HQ estamos lidando com um grande mistério da humanidade. Vamos para “Batman – O Cálice”.

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A HQ começa com um detalhe bem interessante: a dedicatória de Chuck Dixon. É a seguinte:

“Ao padre Johns, o único da Igreja de St. Andrews que lia a página de quadrinhos do jornal de domingo no púlpito.”

001Um misterioso pacote chega à Mansão Wayne. Endereçado a seu pai, Thomas Wayne, numa elaborada letra escrita à mão. O envelope parece ser de couro, e está lacrado com cera. Certamente trata-se de uma brincadeira bastante engenhosa. Mas ao analisar o objeto na bat-caverna, Bruce descobre que se trata de um livro de encadernação irlandesa e papel de linho italiano. Uma lista de nomes. Batman é descendente de um dos Cavaleiros da Távola Redonda.
002Bruce vai ao encontro de Lorde Peter DeWettering, que informa sobre seu passado: ele pertence à Casa de Gevain. E também o fala sobre o futuro: ele tem uma obrigação de sangue a cumprir. Uma obrigação cuja linhagem de Wayne arcou muitas vezes. Cuidar de um objeto mais precioso que sua vida. O cálice onde o sangue do Messias foi depositado, e que deve ser guardado com a vida. Mas porque confiariam um objeto tão precioso à Bruce Wayne, já que sua figura é a de um playboy irresponsável? Será que o Lorde sabia que o Guardião de Gotham é uma das únicas pessoas vivas capazes de ser o Guardião do Graal? Com os poderes do Cálice, Batman poderia oferecer a redenção a Gotham – assim como o rei Artur buscou a redenção de Camelot. Mas não foi essa a missão dada a Wayne. Ele deve proteger o cálice, não usá-lo.
003Mas… Protegê-lo de quem? Batman não tem certeza… Mas tem uma vaga idéia. A notícia se espalha pelo submundo de Gotham, depois dos rastros da morte criminosa e violenta daqueles que entregaram o objeto a Wayne.
Existe alguém que, desde o início dos séculos, cobiça o Graal. Já quase obteve a peça por três vezes na história, mas em todas elas ele perdeu o objeto – e descontou sua ira massacrando pessoas inocentes e criando conflitos que perduram até hoje. Ra’s Al Ghul. Ele precisa desse objeto para aumentar seu poder, para expandir seu reinado sobre a Terra e saciar deu desejo por imortalidade. Ra’s é sempre tão egoísta e interessado em si mesmo… Ou será que não?
004Uma perigosa irmandade de Merovíngios também está à procura da taça, para que volte ao lugar de onde nunca deveria ter saído: de dentro da própria irmandade.
Pinguim também deseja obter a Taça. Para tal, ele contrata os serviços da Mulher-Gato, perita em roubos e crimes.
Essas pessoas não medirão esforços para obter o Graal, um objeto realmente raro e milagroso, que se cair em mãos erradas pode mudar o curso da vida humana sobre a Terra.
A HQ tem um desfecho surpreendente.

A religiosidade dos personagens, tema pouco explorado como eu disse no começo do texto, é trabalhada de forma interessante. Ao analisar o objeto, ela encontra um padrão binário. E trava o seguinte diálogo com Bruce:

“- Você disse que é um artefato religioso?
– Um objeto sagrado. Eu vi a prova! […] Um milagre. Ele tem poderes de cura.
– Eu não creio em milagres.
– Mas esse é real, Bárbara!
– Para milagres funcionarem, é preciso ter fé. Eu não tenho essa fé.
– Você não acredita em Deus?
– Não é isso. É outra coisa. Eu não… Vou continuar trabalhando. Desligo.”

Após desligar, ela revela o padrão binário encontrado na taça. Um trecho da Bíblia, encontrado em Marcos, 14: 32: “E foram a um lugar chamado Getsêmani…”

Ra’s Al Ghul também fala sobre a figura de Cristo.

“O objeto pertenceu a um ser que até eu saúdo. Não por amor, mas por respeito. O cálice é poder. Além do tempo. Além do espaço. Além da lógica humana.”

Também achei bem interessante o início da HQ, com uma narrativa de um cavaleiro medieval corajoso e ousado destinado a proteger o Graal – pelo qual estava disposto a dar a sua própria vida. O texto diz:

“Seu dever era encontrar um artefato: O Cálice de Cristo. Nem todas as hostes do Inferno poderiam detê-lo. Apesar de terem se erguido de todos os lados, seu lado era o da Justiça.[…] Nem a tentação da carne ou a promessa de tesouros terrestres poderiam influenciá-lo.

005Os trechos em negrito não parece descrever exatamente a retidão de caráter de Batman, e sua obstinação com a promessa que fizera aos seus pais?
Eu realmente gostei dessa HQ, apesar de alguns comentários negativos da crítica. Achei a temática incrível, e pensar que Batman pertence a uma linhagem milenar é interessante. Introduzir o mito do Graal a um personagem tão envolto em mistério como é o Batman foi uma combinação que, na minha opinião, deu muito certo. Eu adoro os trabalhos do Chuck Dixon, acredito que ele é um roteirista que SABE trabalhar com Batman.
A arte de John Van Fleet então dispensa maiores comentários. Sua técnica é bastante singular, e colabora para o tom de mistério que cerca toda a história do Graal. Os momentos são mostrados através da expressão dos personagens – basta perceber a diferença na expressão de Wayne quando falam de seu pai, sua face se ilumina, assim como seu coração. E o cálice também traz mais vida ao seu olhar.

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Destaque para os cenários criados por Fleet, bastante poderosos na minha opinião, e para a presença da Mulher-Gato, com uma linguagem corporal bastante chamativa e aparições vivas e engraçadas – em contraste com uma trama de temática densa e quase sobrenatural.
Para mim definitivamente valeu a leitura, e eu tenho certeza absoluta que você vai gostar. É uma HQ tão bacana e tão preciosa que eu estou até com invejinha do ganhador do sorteio! 😛

Falando nisso, agora que você já leu sobre essa HQ, vamos conhecer o sortudo que levou essa maravilhosa edição?

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SORTEIO EMPÓRIO HQ – “Batman: O Cálice” [ENCERRADO]

LogoOlá, queridos!
A Empório HQ é uma loja de compra, venda e troca de quadrinhos/mangás/livros muito legal aqui de São Paulo. Ela está instalada na Rua Tucambira, 86, em Pinheiros, pertinho do metrô Faria Lima. A loja tem um ambiente bem intimista e caloroso, perfeito para você fazer suas compras e ainda ter uma boa conversa sobre a nona arte com os funcionários de lá.

Conheci essa loja quando fui comprar minha edição de Batman – Cacofonia em PERFEITO estado por apenas R$ 6 – que oferta! O acervo deles é MUITO grande e tudo com preços muito justos. Dá uma olhadinha num pedaço do acervo deles:

E a Empório HQ cedeu de seu precioso acervo a edição de luxo da HQ “Batman: O Cálice” para sortear aqui no Batman Guide! Não é o máximo?

CapaCalice

Essa HQ foi lançada em 2004 pela Panini, e no original recebeu o nome de Batman: The Chalice. Quem acompanha o blog há um tempo irá reconhecer já na capa o estilo único da arte de John Van Fleet: ele também desenhou “Batman – De Volta à Vida”. O roteiro fica por conta de Chuck Dixon, que também trabalhou em “De Volta à Vida” e em outras sagas relevantes como “Aves de Rapina” e “A Queda do Morcego”. Na história, nos deparamos com um pacote misterioso chegando à Mansão Wayne, endereçado ao seu falecido pai Thomas Wayne. Dentro desse pacote está um consagrado objeto de desejo de incontáveis historiadores e estudiosos de teologia ao longo dos séculos: o cálice usado por Cristo na última ceia – um objeto raríssimo e de incalculável valor, que irá despertar a cobiça de inúmeras pessoas em Gotham… A resenha completa será publicada junto com o resultado do sorteio.

Agora vamos ao que interessa: como ganhar essa maravilhosa HQ de Batman?

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#40 – Batman: Ankh – De Volta à Vida

Oi!
Temos uma novidade no Batman Guide. Nessa semana, e na próxima, ficará humanamente impossível postar no blog, devido aos últimos trabalhos e provas da faculdade. Então, nesse período vou ser substituída pelo meu amigo Augusto, o autor das geniais resenhas para o post “Especial: Filmes do Batman”. Ele fica sendo meu sidekick temporário! 🙂 Mas eu prometo que volto, ok?

A HQ que ele escolheu pra hoje foi Batman: Ankh – De volta à vida (Batman: The Ankh, roteiro de Chuck Dixon e arte de John Van Fleet, 2001).


Ao olhar a capa (aqui no Brasil saiu na Batman Extra #13), pensei “É manolo, o Bátema virou zumbi”. Tirando esses primeiros 3 segundos iniciais de avaliação, aquilo estava cheirando como uma obra prima em matéria de escuridão, temática pesada e ocultista, e sabe lá mais o que. E querem saber? Realmente foi, mas não à primeira vista, nem pela capa nem pelas primeiras páginas da história.

O nome original da história é “Batman: The Ankh”, que eu considerei MUITO mais a caráter do que “Batman: De Volta à Vida” como foi publicado aqui no Brasil. Por essas e outras não gosto muito de traduzir os títulos.
Para mim não foi bom a primeira vista porque tanto o desenho quanto as cores são detalhes que eu tive de me acostumar antes de curtir de fato a leitura. Eu nunca tinha ouvido falar desse tal de “John Van Fleet”. O traço é muito grosseiro e espesso, parece feito com pincel, o que em conjunto com esse estilo de colorir que parece não haver degradê é como o filtro “stamp” no Photoshop, só que com cores, sei lá, não sei explicar, só sei que é bem “simplista” comparado a algumas outras histórias.

Quem for ver com maus olhos, e quem está acostumado com muitas cores, muitos detalhes e algo realista a nível Alex Ross, Lee Bermejo e etc, vai quebrar a cara. Para estes, os desenhos do Van Fleet vão parecer feitos com suvinil num papel de pão que foi amassado, pegou chuva e foi posto pra secar atrás da geladeira. Mas quem compreende que a graça da arte está na inovação com bom-senso, e que “admirar arte” é responsabilidade de quem vê, verá isso de forma diferente.

Com isso não estou dizendo que esteja ruim, como eu disse antes, pra mim foi só questão de me acostumar, depois de uns minutos lendo eu já estava achando o tal Van Fleet um gênio com estilo único de desenhar, e juntamente a isso, achando que pro roteiro e temática dessa história, esse foi o estilo que melhor encaixou, era capaz de algum outro grande desenhista não pegar o ”clima” do roteiro em seus traços.

Podem reparar que maioria dos quadros não tem cenário, mas que quando o sujeito resolve por um cenário pra situar, ele faz estrago. Está tudo bastante “escuro”, ele faz muito bom uso das sombras, coisa que era essencial pra qualquer desenhista que pegasse uma história do Batman pra fazer. Único ponto negativo nessa história foram os personagens um tanto magros e retos, e o Croc que tá parecendo um macaco.

O roteiro é do Chuck Dixon, dispensa muitos comentários. Ele fez uma viagem louca pro Egito antigo, com lendas, poções, tumbas, e no presente levou a trama pro subsolo de Gotham, onde ficava a antiga Gotham antes do terremoto. Pra quem não sabe, Gotham foi destruída por um terremoto, e quando foi reconstruída, foi em cima da outra cidade, a outra está embaixo, como uma cidade subterrânea vazia, uma mistura de esgoto com ruína e sei lá o que. (Nota da Jéssica: vou falar sobre isso ainda aqui no Batman Guide).

Outro detalhe bom do roteiro é ver o Batman tratando “Bruce Wayne” como um personagem, uma ferramenta, não como “ele próprio”. Há um diálogo do Batman com o Alfred que é este:

Alfred: (…) me incomoda como se refere a Bruce Wayne na terceira pessoa.
Batman: Você ficaria mais incomodado se eu… lhe dissesse que penso nele dessa forma?

E quando Khatera confundiu Batman com Anubis, o rei dos mortos… e a conversa do Croc com Khatera:

Khatera: Nunca vi um homem como aquele, não é a toa que o confundi com um deus.
Croc: É, ele também se acha um.

Impagável de tão incrivel. Vamos a história em si.

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