#93 – Batman: O Observador

Hoje trazemos a vocês o arco “Eye of the Beholder”, lançado em 2011, e traduzido como “O Observador”. Trata-se de mais uma saga da série principal, sequência direta da “Vida Após a Morte”, porém com uma novidade de suma importância: Bruce Wayne está de volta.
É, o morcego velho não estava morto, estava no passado e voltou. Vocês já viram qual foi o (ridículo) processo na “Estrada para Casa” e sagas do gênero trazidas a vocês aqui pela Jéssica. Foi uma confusão do caramba, até pra uma história em quadrinhos onde há pessoas com superpoderes, o ocorrido foi um tanto forçado.
Mas não estou aqui pra debater isso (não agora). Estamos aqui para a saga “Eye of the Beholder”. Quem vê apenas a primeira revista da saga vai a loucura já fica na expectativa de mais uma saga inteira comandada pelo desenhista/roteirista Tony Daniel, mas infelizmente não foi como a coisa procedeu.
Tony Daniel foi roteirista e desenhista de todas as revistas que compõe o arco, e algumas revistas tiveram um toque de bom gosto do Sandu Florea, sendo que oficialmente isso foi obra do Ian Hannin. Obviamente eu preferia que todas fossem do Sandu Florea, mas já que as do Ian estão ali e não podemos fazer nada quanto a isso, aproveitemos para ver a diferença do trabalho de um e de outro. As cores do Sandu são mais vivas e acompanham a profundidade do traço do desenhista, as do outro… São só cores.
Bom, sem mais delongas, estoque de colírio em mãos, vamos a “O Observador”.

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001De início, vale lembrar que há uma “hierarquia” de roteiristas. Na época de lançamento dessas revistas, o roteirista cabeça que ditava como as coisas iam correr nas histórias do Batman (em todas relacionadas, não só na mensal) era o Grant Morrison, o mesmo sujeito que estava por trás da “Crise Final” onde o Morcego recebeu a Sanção Ômega do Darkseid. Na revista mensal e o roteirista “oficial” é o Tony Daniel.
Quando digo “hierarquia” não quero dizer que o Morrison chega pro Tony e diz “Olha… muda essa linha, não gostei”. Não, nada disso. É que o Morrison ditava os principais eventos, tipo o retorno do Bruce. Logo, o Tony não podia fazer o roteiro da saga principal dizendo que o Bruce tava morto, ou fingindo que ele não voltou. Ele podia fazer o que bem entendesse, desde que levasse em consideração tudo que o Morrison anunciava antes, como por exemplo o retorno do Bruce. Não dá pra fugir desses fatos.
Ok, isto posto vamos ao roteiro do Tony Daniel. Assim como em todas sagas escritas por ele, ressalto: Ele sempre traz algo das antigas, e nessa não foi diferente.
O início da história é em algum lugar afastado do centro de Gotham, um casarão, onde um camarada barbudo faz uma ligação traiçoeira sob pressão de um assassino. O barbudo morre do mesmo jeito. A assinatura do matador começa com Henry. Seria Henry Ducard? Mistério.
002A seguir temos uma bela sequência de quadros, da dupla dinâmina na noite de Gotham, um cenário com tom amarelado, daquelas luzes amarelas de inverno (não necessariamente é inverno lá, só quis exemplificar as luzes) e céu vermelho com uma grande lua ao fundo. Uma combinação não muito usual de cores para retratar uma noite na cidade.
Temos Dick Grayson e Damian Wayne em uma perseguição. O alvo? Kitrina Falcone, a nova Moça Gato (Catgirl). E quem tá junto na festa? O Ceifador. Pra quem não lembra dele, o sujeito fez seu retorno a vida (e aos quadros) na saga “Vida Após a Morte”, e não tivemos mais notícias desde que o Grayson o deixou pra detonar Hugo Strange e Dr. Morte na base do Máscara Negra II (Jeremiah Arkham).
003Agora temos a turma toda reunida novamente. Kitrina estava perseguindo o Ceifador por 3 noites querendo a recompensa que há pelo zumbi. O cara não curtiu e partiu pra foice em cima da garota. Como bons estrategistas, Grayson e Damian tentam matar dois coelhos com uma única “caixa d’água”, salvar Kitrina e pegar o Ceifador.
Em uma sequência de golpes que começou com “um movimento estilo Bruce” e terminou com “encerramento estilo Grayson”, Batman consegue derrubar o Ceifador. Eles procuram pela Kitrina, mas a pequena felina já tinha desaparecido. Em seu lugar quem aparece? O Batman. Não o Grayson, outro Batman, o original. Bruce Wayne. “É hora de conversarmos”. Parece um pai pronto pra dar um sermão nos filhos.
Bruce já está com seu novo uniforme, que ainda sofrerá algumas mudanças até o uniforme atual. Este uniforme é conhecido como “Incorporated”, vocês já devem estar por dentro do assunto graças ao post anterior a este (Corporação Batman: Leviatã Ataca!). Bom, os dois morcegos se afastam do local inicial do encontro e no novo ponto de encontro então conversam sobre Kitrina.
É um quadro que fica gravado na minha mente como uma cicatriz, os dois Batmen olhando fixos um pro outro, numa distância curtíssima, ambos de cara feia (seguindo a regra de SER Batman). Se eu sou um criminoso vagando pelos telhados e de repente dou de cara com dois Batmen se encarando com cara de nervosos eu já ia andando sozinho pro hospital, torcendo pra chegar lá só precisando de calmantes, e não de talas e pontos.

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Um Batman visivelmente maior que o outro, ponto novamente pro Daniel ao retratá-los de forma tão diferente e plausível, pois dá pra identificar ambos só de olhar pro rosto, que teoricamente são iguais (capuz preto com a boca descoberta). Grayson tenta dar explicações sobre o que pretendia fazer quanto a Kitrina, dizendo que ia falar com Selina, e Bruce é bem direto: “Selina não manda em Gotham. Você manda. Enquanto eu estou fora”.
Realmente, o Grayson tem um método mais “conversa”. Ele meio que argumenta com a Selina para conseguir o que quer, coisa que o Bruce não faz com ninguém. Com o Grayson é “Tira a Kitrina da rua, isso não dá certo, blablabla… “ com o Batman original é “Kitrina. Rua. Nunca mais. Se não eu entro. Dai fudeu meio mundo”.
O cenário ao fundo é magnífico, estilo aquela famosa capa que o Tony Daniel fez pra uma história lá dos tempos do Ra’s Al Ghul, cheio de janelas, pontes, caixas d’água, chaminés… o cara nasceu pra isso.
Batman (Bruce) dá o ultimato, e Batman (Richard) diz que vai resolver. Fora dali, o sujeito que foi “enganado por telefone” pelo barbudo no inicio da história, vai nas indicações falsas e acaba disparando uma armadilha, uma bomba. Não temos confirmações nesse quadro, o que parece inicialmente é que o cara deve ter morrido.
Na parte diurna da história, Dick Grayson e Lucius Fox participam de uma reunião em nome da Wayne Enterprises. Dick está fazendo papel completo de Bruce. Diversas vezes em histórias antigas temos Bruce fazendo coisas do gênero. Dá pra ver na cara deles e nas palavras um “Anda com essa porcaria, eu tenho que trazer justiça para a noite daqui a pouco”. Dificilmente vemos Grayson na frente das empresas Wayne. Ele não é do tipo “empresário”. A proposta da empresa chinesa fala de restaurar o Beco do Crime.
A noite dá as caras novamente, Selina está em alguma festa luxuosa passando a perna em algum velho rico qualquer, e Grayson aparece lá a paisana para conversar com a Mulher-Gato sobre sua filhote. Depois da chamada do Bruce, o assunto ganhou prioridade, né.
004Mais uma vez temos a guerra entre olhos azuis e verdes, assim como na Torre Wayne quando Dick queria que Selina arrumasse informações sobre o Máscara Negra com a Hera Venenosa, dessa vez Grayson quer saber onde está Kitrina, mas Selina também não sabe. Pelo visto a menina tem um instinto bem traira.
Ressaltando a arte deste encontro entre Dick e Selina… O vestido dela está com um colorido de rosa suave, porém com brilho, como se tivesse luz própria. Sei que o comentário foi meio Edney Silvestre, mas lembrando que isso não é uma foto e sim um desenho, só podemos chamar de obra de arte. E o Dick está quase como uma versão mais nova do Bruce, assim como Selina disse na Torre Wayne na outra história.
005Depois que Selina deu pra trás com as informações sobre Kitrina, Dick se vai e a Kitrina se revela na cena, revelando a nós então que a Selina está acobertando a garota. Dick vai para as ruas, e novamente dá de cara com uma mulher que se revela perigosa, Sasha Lo, a tal negociante chinesa que quer o Beco do Crime. Ela oferece 10 milhões de bônus ao Grayson separadamente se ele convencer o Bruce a vender as tal propriedades, que também estão sendo compradas por um valor altíssimo, muito além do que valem. Qual interesse ela tem nisso? Só o filantropismo que afirmou? O mundo não é belo assim.
Alguém tenta dar uma flechada em Grayson, Sasha segura a flecha no ar e bate em perseguição do assassino. Grayson não ia deixar barato assim. Acelerou a pé debaixo da chuva em Gotham e usando escadas de incêndio partiu pros telhados. Ele acionou o Alfred para enviar um uniforme, e assim acontece, Grayson põe o manto do Morcego e parte pra conferir qual é a real história.

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007A tal Sasha Lo também mudou de roupa no caminho, virou uma gueixa/ninja/pavão do inferno e pegou o tal arqueiro que tentou matá-la. Ou achou ter pego, era um truque, o real arqueiro ia matá-la, mas dessa vez é Batman (Dick) que a salva. Uma vez com o inimigo derrubado, começam as apresentações. A “Pavão” se apresenta e diz que o assunto não é do interesse do Batman, e ele em uma tacada bem “Bruce” diz “Esta é minha cidade. Tudo me interessa”.

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#90 – “Descanse em Paz”: O Capítulo Perdido

“Eu sobrevivi ao encontro com algo maior do que eu, mais forte do que eu. Algo capaz de torcer cada momento da minha vida e fazer um caminho que me leva até aqui. […] O tempo ainda está se movendo. […] Eu deveria saber, quando escolhi trilhar este caminho. Ele nunca termina.”

Olá, queridos!
A última HQ de 2013 no Batman Guide irá nos esclarecer algumas coisas a respeito das sagas Batman: Descanse em Paz e da Crise Final – ou então, o que é mais provável, acrescentar outras dúvidas.
Por todo esse tempo nunca ficou muito claro qual era exatamente a ligação entre “Batman RIP” e os eventos que aconteceram com o Morcego em Crise Final. Certos detalhes eram controversos e até mesmo contraditórios. Tudo estava muito confuso, não dava para entender exatamente que eventos vinham primeiro… Se para nós que estamos lendo isso depois de 3 anos já está difícil de entender, imagine para quem acompanhou as séries na época de lançamento (2009-2010). Essas duas sagas foram lançadas paralelamente.
É exatamente por isso que eu recomendo que mesmo quem já conhece bem essa parte da cronologia do Morcego leia meu texto. Darei o meu melhor para esclarecer alguns pontos que ficaram perdidos nessa confusão, através dessa HQ que é, exatamente, o elo entre os eventos de Crise Final e Descanse em Paz.
Acompanhe agora “Descanse em Paz”: O Capítulo Perdido” (“R.I.P.: The Missing Chapter”, roteiro de Grant Morrisson e arte de Tony S. Daniel, setembro-outubro de 2010).

Para a leitura dessa HQ, recomenda-se que você tenha lido, ou pelo menos conheça em linhas gerais, as seguintes sagas:

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A primeira coisa que você precisa saber sobre essa HQ: ela foi feita meio que sob “encomenda”. As edições de “Descanse em Paz” e “Crise Final” haviam sido sucesso de vendas, mas sofriam terríveis críticas justamente por essa confusão que se instaurou para a compreensão até mesmo dos fãs mais antigos. Então, Grant Morrison foi convidado para escrever uma minissérie que ataria TODAS as pontas soltas no que se refere à compreensão desse momento da cronologia do Morcego. Acredito que ele tenha sido orientado a ser mais claro e didático quanto aos acontecimentos, e menos subjetivo, usando menos de elementos simbólicos e metafóricos (claro que ele não abandonou isso, ou não seria o Grant Morrison). E assim surgiram os dois volumes que compõe “‘Descanse em Paz’: O Capítulo Perdido”.
Para garantir que todas as suas dúvidas sejam sanadas, vou dividir esse texto em duas partes, uma para cada volume.

001Parte 1: O Buraco nas Coisas
A narrativa é conduzida por Batman, o que confere um tom bastante pessoal à história. Eu tenho um apreço pessoal pelas histórias em que Bruce é o narrador. Por favor, observe a contagem que está aparecendo nas páginas: “__ dias até o Ômega”. Ou seja, estamos em uma contagem regressiva dos dias até que Batman será sancionado pelo Efeito Ômega de Darkseid.
Batman sai de um rio, depois de conseguir escapar da morte após os eventos conduzidos pelo Doutor Hurt em “Descanse em Paz” (se não se lembra como a história terminou, por favor, releia o meu texto). Ele vai até Alfred, que limpa suas feridas e cozinha para ele. Contudo, dessa vez Batman QUASE não escapou: ele teve alguns erros de cálculos ao utilizar a dosagem de anti-veneno do Coringa, e esteve à mercê de seus inimigos por 30 minutos inteiros. Trecho interessante é quando ele comenta com Alfred que eles estavam certos sobre Jezebel Jet; no fim das contas, Batman não acreditava realmente na ruiva.
002Existe outra coisa intrigando Batman. O corpo de Hurt não estava no rio abaixo de onde seu foguete explodira. Ele sabia que um ser humano normal (isto é, outra pessoa que não fosse ele mesmo) não sobreviveria naquelas condições; entretanto, onde estaria o cadáver? Não havia sinal do corpo de Hurt ou do piloto do foguete. Alfred ainda tenta argumentar que possivelmente os restos mortais poderiam ter sido levados pelas correntezas, mas Batman sente que essa explicação não é suficiente.

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Sabem, desde que comecei a escrever essas HQs sobre o Morrisson, tem uma expressão que me chama MUITO a atenção. É ela que dá nome a essa edição: “O buraco nas coisas”. Cheguei a pensar que se tratasse de uma referência bíblica; fiz essa pesquisa em português e em inglês, mas não obtive nenhum resultado. Essa expressão é usada por Doutor Hurt para se referir a ele mesmo. Por que essa expressão? Ela é explicada nessa HQ. [Alerta de spoiler! Se deseja ler, selecione o texto a seguir]. Doutor Hurt é um membro perdido da família Wayne, uma “ovelha negra”. Um buraco na árvore genealógica. [Fim do spoiler]
Batman é, então, convocado por Superman para uma tarefa. Alguém matou um deus (Órion). Os céus já estão vermelhos. Já começou a Crise Final. Tem uma fala de Bruce interessante nesse trecho a respeito do seu relacionamento com os outros heróis:

“Eu trabalhei tão duro para ganhar o respeito deles que às vezes eles esqueciam que eu sou de carne e osso.”

003-1Não é segredo para nós o respeito que Batman recebe parte dos outros heróis. A despeito da sua “falta” de super-poderes, suas qualidades dedutivas, estratégicas e de combate, e sua integridade moral o colocam como um dos elementos da Trindade dos heróis da Liga da Justiça. Mas isso é material para o começo do ano que vem (aguardem!).
Voltando, Superman convida (isto é, intima) Batman para conduzir uma investigação de assassinato de nível interplanetário. Bruce havia sido amaldiçoado por Hurt: a próxima vez que ele vestisse a capa e o capuz, seria a última.Mas você já viu Batman ceder a alguma ameaça? Ele aceita o chamado da Liga da Justiça.

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#89 – O Tempo e o Batman

“O amanhã pertence ao Batman.”

Olá!
Como as coisas se complicaram nessas últimas semanas… É meu penúltimo semestre da faculdade e o laboratório onde eu trabalho esteve envolvido em grandes seminários e congressos que exigiram muito de mim e de todas as meninas que trabalham comigo. E o resultado foi mais de um mês sem postar aqui no Batman Guide! Peço desculpas a todos vocês por esse atraso. Entretanto, nem tudo são más notícias: são minhas primeiras férias de trabalhos e estudos desde o começo de 2012! Desde então, quando eu não estava trabalhando, estava estudando, e vice-versa. Agora estou de folga dos dois! Vamos tentar compensar o tempo perdido então?

A HQ de hoje foi publicada na Batman #700, em uma edição gigante de aniversário. Conta com o roteiro de Grant Morrison e a arte de Tony Daniel (pgs. 3-10), David Finch (pgs. 11-18), Andy Kubert (pgs. 19-27) e Frank Quitely (pgs. 28-33). Além disso, tem uma galeria de imagens que conta com artes de Guillem March, Dustin Nguyen e Bill Sienkiewicz, entre outros. Sim, esse é o grupo de DINOSSAUROS responsáveis por essa história. Eu tenho a impressão que você não deveria deixar de lê-la.
Aprecie “O Tempo e o Batman”! (“Time and the Batman”, agosto de 2010)!

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Você, leitor do Batman Guide, sabe o que acontece quando Grant Morrison está no roteiro de uma obra. É hora de abandonar alguns conceitos pré-estabelecidos: tempo, espaço, consciência, realidade, sonho. O conceito que você precisará redefinir para esta HQ é, como o próprio nome da história diz, tempo. O templo é flexível.
Como comemoração da edição #700, o que temos é uma viagem pela trajetória do Morcego ao longo dos exatamente 40 anos de história. Cada período da história de Batman é homenageado com primor e detalhismo que irão agradar aqueles que, como nós, tem interesse no caminho que o Morcego percorreu desde o caráter brincalhão da Era de Prata até seu estabelecimento como o Cavaleiro das Trevas sério e implacável que ele se tornou.
Introduções feitas, vamos para a história.

001Primeira parte: o “Ontem”.
Batman (Bruce Wayne) e Robin (Dick Grayson) estão sendo mantidos reféns por Coringa, Mulher-Gato e outros vilões como Chapeleiro Louco, Charada e Espantalho. A arte dessa parte é riquíssima em detalhes. Vou pedir para que você leia com cuidado um dos enigmas que Charada faz em uma dessas páginas. Ao identificá-lo, tente respondê-lo mentalmente.
Os heróis estão sendo submetidos a uma máquina de hipnose temporal. Trata-se de uma Máquina de Possibilidades; nas palavras de Batman, ela “gera visões de como as coisas poderiam ter sido”. Mas nem por um minuto vocês devem se esquecer que estamos falando do Goddamn Batman: levará três minutos para a máquina ser reiniciada pelo doutor Carter, e ele avisa aos vilões que estará livre das algemas em apenas dois. Coringa não acredita nisso. Ele acha que conseguiu quebrar Batman, “atropelá-lo” – lembre-se da sua participação nos eventos de “Batman: A Luva Negra”. Inconformado, ele faz uma promessa: ele irá enviá-lo de volta para o grande dia em que Batman nasceu, e dar a Batman a chance de desfazer a sua própria criação, abortando os demônios que o levaram a ser o que é. Através do Livro de Piadas do Coringa.
002Bem otimista esse Coringa, né. Ele realmente acha que o Batman ia deixá-lo brincar de deus dessa maneira? Claro que o Morcego consegue se desvencilhar do plano de Coringa e mandar os vilões para os cuidados de Gordon.
Entretanto, na volta para casa, Batman e Robin começam a conversar… E se Batman tivesse realmente voltado no tempo e impedido Joe Chill de matar seus pais? (Isso me lembrou um dos paradoxos das viagens no tempo, mais especificamente o Paradoxo do Avô, em que se discutem as implicações de uma pessoa voltar no tempo e matar seu avô, que por sua vez não conheceria sua avó, ou seja, essa pessoa não existiria). Entretanto, essa possibilidade não tira o sono de Bruce porque, segundo ele, “somos o que somos e não podemos mudar o que já aconteceu”. É uma filosofia que eu, particularmente, adoto para a vida.

003Segunda parte: o Hoje.
Anos depois. Agora Batman é Dick Grayson, e Robin é Damian Wayne. O doutor Carter Nichols está morto. Um tiro no coração, mas sem sinal da arma. Um sorriso no rosto. E o capacete da Máquina de Possibilidades ao seu lado. Desconfiado, Grayson acha que seria uma boa idéia aparecer no Beco do Crime, onde os pais de Bruce morreram – e o conceito de Batman nasceu – para levar flores em homenagem a Martha e Thomas. Mas como é pedir muito que Batman e Robin tenham UM minutinho de paz em Gotham, eles se deparam com uma legião de bandidos fazendo um arrastão na cidade. Ah, os bons e velhos quadros de porradaria, dentes quebrados e maxilares deslocados, uma cortesia de Batman e Robin.

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004Aparecem uns vilões a mais que contam sobre um leilão ilegal do Pinguim e Batman avisa, sorrindo, que está de olho neles. Na boa, acho que eu me assustaria menos levando umas porradas do Batman do que sendo alertada por ele com esse sorriso perfeito meio maníaco. Esse jeito do Dick Grayson desagrada a alguns, mas é indiscutível que só piorou o medo que os vilões tinham de Batman.
005-2Você vai notar que, da página 18 à 19, a arte sofre uma mudança significativa; a arte fica a cargo de Andy Kubert. Particularmente, eu não curti o desempenho dele nessa HQ. Ele fez os personagens com queixos mega-projetados para a frente e os lábios inferiores muito evidentes. Fica meio difícil de enxergar a seriedade nas coisas com um Batman fazendo beicinho. Mas tudo bem, ninguém acerta o tempo todo. Dick postula sobre a morte de Charter: foi suicídio. Um suicídio com um tiro no coração e sem sinal da arma? Oh, well, quem sou eu para questionar o Batman, não é?

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#78 – Batman: Batalha pelo Manto

“Mudar sempre é mais difícil do que permanecer o mesmo. É preciso coragem para se encarar no espelho e ver além do reflexo. Para encontrar o que você deveria ter sido. O você que se perdeu pelos cruéis eventos de infância. Eventos que pegaram a trajetória natural da sua vida e a distorceu. Mudar para algo inimaginável… Ou mesmo incrível… Te dando a coragem para abraçar o seu legado, o seu destino, e finalmente perceber… Que VOCÊ É O BATMAN”.

Precisa escrever algo mais pra essa intro? A frase já valia o texto inteiro, eu podia me despedir agora que não faria diferença. Cidadãos de Gotham, preparem-se pra reta final de uma grande mudança. A essa altura todos vocês já sabem que o Bruce Wayne cantou pra subir graças ao Darkseid, mais conhecido como “Mano Uxas” nos butecos de Apokolips. O título que escolhemos para a tradução não bate totalmente com o título dado aqui no Brasil. Lá fora o título saiu como “Battle for the Cowl”, aqui saiu como “Batalha pelo Capuz”, quando a tradução mais exata seria “Batalha pelo Manto”. Eu prefiro chamar de “Guerra pelo Manto”. Saiu de maio a julho de 2009.

Uma “batalha” e uma “guerra” são coisas diferentes. A proporção e o simbolismo não são os mesmos. Gotham ficou sem o morcego, Gordon perdeu Gotham pras gangues, todo mundo tocou um rebu do inferno se garantindo de que o Morcego sumiu. Apesar de todos imaginarem que o fim do Morcego só podia ser assim, ninguém nunca imaginou esse dia acontecendo. Claro que a cidade não caiu por completo como no “Terremoto” e “Terra de Ninguém”, mas a confusão agora ficou consideravelmente grande, e ao contrário das duas sagas que citei onde Gotham caiu e o Batman permaneceu, nessa é Gotham que fica de pé é o Batman é que some. Darei uns semi-spoilers pra exemplificar ainda mais como isso é uma GUERRA. [Alerta de spoiler! Se deseja ler, selecione o texto a seguir]. Dois membros da familia Wayne se vestem de Batman e vão pras ruas, um fica perto de morrer, esse se atraca com um terceiro membro, os dois lutam até as últimas consequências, o vencedor se torna Batman e o derrotado só não morre por acaso do destino. [Fim do spoiler] Tony S. Daniel é o responsável pelos desenhos e roteiro dessa “passagem” que muitos acharam que nunca iria acontecer, o nascimento de um novo Batman. Trabalho incrível em conjunto com Sandu Florea nas cores. Acompanhem a ascenção de um novo Homem-Morcego na Guerra Pelo Manto.

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001Como eu disse há um instante atrás, temos os desenhos e roteiro por Tony S. Daniel, um de meus desenhistas preferidos, sou até suspeito pra falar. As cores estão por Sandu Florea, que sempre está com Tony Daniel na maioria das histórias em que ele trabalha. Se formos na brincadeira dá até pra chamá-los de Batman e Robin. Mas falando sério, são bons profissionais. Vocês terão cores muito vivas diante dos olhos, luzes quase reais nas lâmpadas desenhadas no papel, desenhos com proporções ótimas e anatomia fiel, se quiserem exemplos de más proporções e anatomia, procurem desenhos do Eddy Barrows, onde todo mundo tem as pernas mais curtas que o tronco, e do lendário Rob Liefeld, que não sabe desenhar pés e mãos. 003No primeiro quadro temos Robin (Tim Drake) usando seu uniforme vermelho e a Squire (Beryl Hutchinson), conhecida como “Escudeira” aqui na Ilha de Páscoa, a equivalente do Robin para o Knight, que é tipo o “Batman da Inglaterra”. Foi só exemplo, não chega nem aos pés. Enfim, quem gosta desse uniforme de Robin, aprecie agora, pois será a última história em que o verão. Para os conservadores é tipo um chute no saco. Apesar desse uniforme já estar fazendo bodas de prata com o personagem e eu não ter ligado tanto desse uniforme ter sumido, compreendo bem a sensação de quem não gostou. Eu briguei com meio mundo quando tiraram a cueca por cima da calça que o Batman usava, mas já acostumei. Essas coisas são assim mesmo. 002Voltando ao que importa… Robin e Squire derrubam alguns capangas do Coringa, e ao final vêem uns outros capangas que já foram derrubados antes da chegada deles, acompanhados de um bilhete do “Batman”. Claro que esse não era Bruce Wayne. Robin descreve como está nossa Gotham City. Percebendo a falta do Morcego, vilões grandes como Pinguim e Duas-Caras voltarma a guerras por território, e gangues menores querendo chamar atenção entram na confusão mostrando que não estão pra brincadeira. A força policial de Gotham estava trabalhando demais, recebendo de menos, tendo seus familiares ameaçados e muitos acabaram pedindo demissão da policia devido a isso, dando ainda mais espaço pra vagabundagem. Entendem o porque de “A máscara não é pra você, é pra proteger quem você ama”? Então. 012Foi só o Morcego sumir que Gotham entrou em um Harlem Shake de escalas desastrosas. É como a Caçadora disse durante a “Terra de Ninguém”, o símbolo do morcego exerce uma reação inigualável, e quando o morcego sumiu… Podem ver o que deu. Vamos lá, pra encarar Coringa, chefes de imensas máfias e gangues como Pinguim e Duas-Caras, monstros gigantescos como Croc, Bane, guerreiros milenares como Ra’s Al Ghul… Ou você tem respeito ou não tem. E o respeito dos marginais se foi junto com o Morcego. Diante do caos instalado, Asa Noturna (Richard Grayson) e Batgirl (Cassandra Cain) formaram um grupo de ajuda pra Gotham, entitulado “A Rede”, dentre eles reconhecemos ali nos quadros o Morcego Humano, a Batwoman junto da Batgirl, a Canário Negro, a Lince, Asa Noturna com Caçadora e o Knight (o “Batman” da Squire)… Um estado de emergência onde todos procuram pelo Batman, ou como disse o Tim Drake, por “um” Batman. 004Como se não fosse confusão suficiente, o finado Máscara Negra dá o ar da (des)graça. Fica subentendido que este é outro Máscara Negra. Este parou o comboio de vilões que estava indo para o Asilo Arkham, e soltou todos. Pessoas de bem como Croc, Zsasz, Hera, Espantalho… Todos livres, e devendo esse favorzinho ao novo Máscara Negra. Como se não bastasse isso, todos os detentos receberam um complemento químico junto de seus sedativos que sob um determinado comando de voz… Se ativa e mata a pessoa. Ou seja, todos os detentos do Arkham estavam obrigatoriamente sob ordens do Máscara Negra, e o sujeito não satisfeito com isso, ainda manda o Asilo Arkham pelos ares. Quem tiver as habilidades de detetive pode matar esse mistério de QUEM é o novo Máscara Negra agora mesmo. O misterio só termina oficialmente em uma revista lançada anos depois dessa, mas nessa sequência de fatos vocês já podem deduzir quem é o novo Máscara Negra. Vou só dar uma empurrada no raciocínio de quem tá lerdo: Esse Máscara Negra sabia do comboio, e sabia tanto o trajeto quanto o horário da passagem dele, teve acesso ao Asilo para plantar os explosivos e acesso aos medicamentos dos detentos. Vá, não é difícil assim, a única dificuldade é pensar que esse sujeito teria peito pra isso tudo. Podemos ver Jim Gordon sendo fortemente pressionado pela imprensa, e não é pra menos, até o Batsinal nego sacaneou, escrevendo um RIP dentro do morcego. Não veríamos diferente em um caso assim em nossas cidades. Por casos muito menos sérios vemos um estardalhaço maldito, imaginem num caso desses. 005Na Batcaverna, temos alguns quadros excelentes do Asa Noturna encarando os uniformes do Batman. Tim Drake vê a cena e simbolicamente diz que “ele” (o uniforme, que no caso seria o Batman) parece triste ali dentro, e Grayson completa dizendo “Talvez porque ele possa ver como nós deixamos Gotham virar um inferno”. “Frescura dele, era só pegar logo o uniforme e tcharam”. Não é assim. Se ponham no lugar dele. Você é o homem de confiança do Morcego, o primeiro a lutar a seu lado, o único que já o substituiu de forma bem feita. Era você que ele chamava separado dos demais na cara de TODOS pra passar as informações primeiro. Você deve tudo que tem e tudo que é a ele, ele morre, a cidade que ele dedicou a vida para proteger vira um caos e você não consegue reverter o quadro. Você acha que merece usar a roupa do Batman nas ruas? Não acha que o máximo que conseguira é denegrir a imagem do Morcego talvez tombando derrotado no meio de Gotham? Não é simples. Tim Drake parece estar mais abalado não pelo fato de nenhum eles estar assumindo o manto, mas na verdade porque alguém fez isso na frente deles. Dick chutou que seria algum cidadão brincando de herói, mas Tim diz que é alguém habilidoso, alguém que usa batarangues e bat-cordas iguais as que o Bruce usa. 011Dick não toma muito partido dessa briga, mas Tim está decidido a não deixar barato. Ele analisa todas pistas deixadas e após uma longa lista de quadros citando detalhes de resíduos encontrados nos bilhetes do tal “Batman”, ele deduz que o sujeito que se passa por seu pai se esconde no subsolo, e que apesar de se vestir como Batman e agir parecido, ele não é e nunca será Batman. “Só pode haver um Batman, e não é você”. Podemos ver um jogo de sombras mostrando a silhueta de Tim no escuro, pondo um uniforme do Batman para ir atrás do farsante, e na vitrine onde ele pegou, deixou um bilhete colado. Reparem bem a silhueta dos demais uniformes contra a luz das vitrines, temos ali inclusive o uniforme mais antigo do Batman, aquele com as orelhas meio torcidas e grandes iguais as de Morcego mesmo. Tony Daniel é um cidadão que gosta de poeira, em maior parte das histórias que ele desenha e/ou escreve, vocês vão poder pescar algum detalhe de algo muito antigo a respeito do Morcego. Seja algum dos artefatos da caverna, algum uniforme, algum vilão que há décadas não aparecia… Ele sempre dá um jeito. Todo desenhista/roteirista que se preze deveria seguir esse exemplo, ele mostra que CONHECE e RESPEITA as histórias do Batman, e em momento algum tenta modificá-las de forma absurda, pelo contrário, sempre busca referências das histórias antigas que nem tem a mão dele. Mas bem, só pra não passar em branco, foi bonito ver o Tim se referindo ao Bruce como pai. Dick treina sozinho na caverna, depois treina kendo com Alfred (que aparentemente o vence). Alfred tenta argumentar que Bruce pode ter ido, mas que o Batman não necessariamente precisa ter ido junto. Podemos ver que todos estão em cima do Grayson pra ele botar logo o uniforme e ir pras ruas, mas ele se recusa. Ele não deixa de defender a cidade, saiu para atender Gordon, como Asa Noturna. Página linda por sinal, os efeitos da luz do bat-sinal contra o Asa Noturna e o Gordon, obra de arte. Mascara Negra municia todos seus “soldados” e parte pra ação principal. 006Temos algumas cenas de Selina trocando porradas no beco do crime, e de um Batman voando sobre os prédios acima dela. Esse é Tim Drake, usando um uniforme antigo do morcego, o de elipse amarela no peito. Talvez em homenagem a época em que ele se tornou Robin, vai saber. O que está claro é que Tim deseja dar um couro no Batman farsante. Damian faz sua primeira participação na história dirigindo o Batmóvel do papai carregando alguma jovem desconhecida no carona, Oráculo descobre, ejeta a menina e toma o controle do carro, mas Croc faz o veículo capotar. Sabendo que deu problema dos grandes pro garoto, Barbara pergunta pra Lady Falcão Negro e Caçadora em quanto tempo elas podem chegar lá, mas Asa Noturna ouve a confusão em frequência aberta e vai ao local. Notem a lua atrás do Asa Noturna. Os caras fazem uma monalisa por página. É admirável. Lembro-me de muitos leitores reclamando que o Tony Daniel atrasava com os prazos das revistas… Mas como querem uma história com essa qualidade em pouco tempo? Pra mim a revista podia ser até bimestral se fosse pra sair com esse aspecto. O que não suporto é um zé ruela tipo Greg Capullo ou Eddy Barrows serem elogiados por aquela pouca bosta que fazem. Mas tá, o mundo não gira pra quem merece, não é novidade. Hera Venenosa e Croc estavam em cima do filho do Morcego, Croc ia matá-lo em uma mordida, mas Asa Noturna passa voando e o salva. Esse foi um dos primeiro resgates do Dick para o Damian. O vôo foi encerrado com certa velocidade, foram atingidos ainda no ar e cairam dentro de um prédio, Asa Noturna totalmente baqueado e Damian dessa vez o ajudando. 007Ele manda Damian se esconder e se revela para os capangas do Máscara Negra, uma atitude um tanto suicida,mas que talvez desse chance pro garoto se salvar. Talvez fosse a intenção do Grayson, talvez a morte o livrasse de tudo, talvez no fim das contas, isso não fosse o pior. Eis que do aquém do além de onde não vem ninguém surge quem? Uma cruza do Batman com um fogão dando uma de Lucifer dos Cybercops.

Batman

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#74 – Batman: A Luva Negra

“E se houver um vilão supremo lá fora, ainda não visto? Uma mente brilhante absoluta, voltada totalmente para matar? E se existisse um inimigo invisível e implacável, que calculasse todas as minhas fraquezas? Que tivesse acesso a aliados, armas e táticas que eu nem pudesse imaginar… Um adversário cujos planos e esquemas fossem tão vastos, tão elaborados que passassem despercebidos… Até que fosse muito tarde. Como eu poderia me preparar para um desafio como esse? Eu teria recursos para lidar com isso? Eu frequentemente me pergunto.”

Olá!
Sejam bem-vindos a mais uma resenha do Batman Guide!
A HQ de hoje é a última antes de dois eventos importantes para a cronologia do Morcego – e do próprio universo DC em si. Com roteiro de Grant Morrison e arte de J. H. Williams III, Tony S. Daniel e Andy Kubert, esse encadernado foi lançado pela Panini em uma edição deluxe em junho de 2012. Espero que vocês gostem da resenha!
Batman: A Luva Negra (Batman: The Black Glove, agosto de 2007 a maio de 2008)

Para a leitura dessa HQ, recomenda-se fortemente que você tenha lido, ou pelo menos conheça em linhas gerais, as seguintes sagas:

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Na verdade, o encadernado de “Luva Negra” traz duas grandes histórias: a primeira com 3 edições (coleta as edições da série mensal de Batman #667-669) e a segunda com quatro edições (Batman #672-#675). Para descrever essa coleção, vou adotar a seguinte metodologia: falar um pouco de cada uma das 7 histórias, e depois tentar passar a importância dessa compilação para esse momento do Morcego.

Vamos para o primeiro arco.
A primeira história se chama “A ilha do Senhor Mayhew”. Somos levados a um lugar misterioso, onde está havendo uma reunião misteriosa com pessoas misteriosas. Mas logo descobrimos: trata-se de uma reunião dos Batmen de Todas as Nações. E quem são esses caras? Os “Batmen of All Nations” são uma equipe de heróis inspiradas no morcego, cada uma espalhada em um país do mundo. Essa ideia surgiu nos anos 50, devido à inspiração que Batman trouxe ao mundo, e se reuniam sob a alcunha de “Clube de Heróis”.
Nessa HQ, temos os seguintes Batmen (e é ótimo que vocês leiam isso antes de ler a HQ, para não ficarem absolutamente perdidos como eu um dia fiquei na primeira leitura):

 O Cavaleiro (Inglaterra), cujo nome verdadeiro é Cyril Sheldrake, e sua sidekick Square (Escudeira).
 Mosqueteiro (França)
Homem-dos-Morcegos e seu sidekick Corvo Vermelho (Estados Unidos), que são descendentes de indígenas.
Wingman ou Alado (Suécia)
Gaúcho (Argentina)
Dark Ranger (Austrália)
O Legionário (Itália)

Batmen

001Entretanto, essa ideia não foi muito para frente. A iniciativa de Grant Morrison de recuperar esse conceito quase esquecido se sai muito bem nessa edição, como falarei mais no fim do texto. Feita essa introdução, vocês poderão contemplar com assombro a perspectiva de vários Batmen reunidos, com roupas inspiradas no traje do Morcego. É engraçado no começo porque todos os “Batmen” (e “Robins”) estão reunidos contando casos de como tem sido esses anos, conversando e brincando com o fato de que o verdadeiro Batman (Bruce Wayne) jamais se dignaria a dar as caras por ali – e eis que surge o Morcego original em pessoa pela porte, imponente, deixando todos estupefatos. Batman continua sendo uma grande inspiração para eles. É hora de descobrir porque todos estão ali reunidos.
002Engana-se quem pensa que o Clube de Heróis está ali reunido para tomar um café e discutir sobre o quão incômodo é usar uma roupa colada e pular de prédios de madrugada. Há um sério caso para se resolver. Eles foram convocados pelo bilionário John Mayhew, mantenedor do Clube de Heróis. De fato, há um vídeo. Gravado por Mayhew.
Mas não é ele. Ele está morto. E alguém está usando sua pele. O plano de fundo é a pintura “The Triumph of Death”, de Pieter Bruegel. Essa pessoa convida os Batmen para desvendarem esse mistério, como uma cortesia de alguém que se intitula Luva Negra. E é melhor eles solucionarem logo… Antes que também acabem mortos.
Destaque para a primeira capa: uma foto do Batman e o Clube de Heróis nos moldes da Era de Prata, que mostra um Batman quase “feliz” e seus representantes ao redor do mundo, com o reflexo do sério e solitário Batman atual refletido em sangue. Pesado.

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004A segunda história, sob o nome de “Agora estamos mortos!”, é uma continuação, mas com um diferencial: essa edição está começa com uma lembrança de alguém, e é ilustrada de acordo com as histórias típicas dos anos 50. Morrison nos ajuda a conhecer aos poucos cada um dos Batmen. Trata-se da memória de Cyril, “O Cavaleiro” da Inglaterra, e da morte de seu pai durante uma reunião do Clube dos Heróis. De fato, eles podem se inspirar em Batman, mas eles são humanos normais que às vezes sentem os nervos à flor da pele. Quem matara o pai de Cyril? 003Flashback feito, voltamos à terrível realidade: Legionário, o representante italiano de Batman, é morto com 23 facadas por alguém a mando do ameaçador homem do vídeo. E o assassino está dentro da Mansão. Pode ser qualquer um deles.
Cena engraçada é quando Wingman desconfia de Batman, dizendo que ele podia ser ao assassino, porque ninguém sabia se quem estava debaixo da máscara realmente era Batman – e Batman se aproxima sorrateiramente por trás e ironiza a guarda baixa de Wingman, dizendo “Se eu não fosse, você já estaria morto.”
005Cyril é pego e envenenado. Por sorte, o Homem-dos-Morcegos tem habilidades médicas e se prepara para salvá-lo. Enquanto isso, o restante dos Batmen prossegue na sua procura pelo assassino à solta na Mansão, e eis que um detalhe amedrontador acontece… Uma armadura se move! Isso é tão típico de livros de mistério, assim como toda a HQ, cheia de pistas para os leitores tentarem desvendar. Quem será o assassino? Ou talvez, como Mosqueteiro propõe, seja… Um grupo diametralmente oposto ao Clube de Heróis? Luva Negra tem um trunfo: sequestrou todos os três sidekicks ali presentes. Você, caro leitor, já descobriu quem está matando e ferindo todos os Batmen?
006A terceira história é “O Cavaleiro das Trevas tem que morrer”. Mais dos Homens-Morcegos são abatidos. Estão sobrando poucos. Agora os Batmen que sobraram precisam ir atrás dos garotos, enquanto tentam não ser mortos por uma ameaça que pode estar ao lado deles. Em um golpe de genialidade, no último minuto Batman consegue desvendar o mistério, e precisa lutar contra ele antes que Corvo Vermelho, Robin e Squire sejam jogados em um lago de piranhas carnívoras famintas ou picados até a morte por vespas assassinas. E bem, tentar fazer isso antes que a Mansão exploda com os explosivos escondidos. Eles conseguirão se salvar?
007O que podemos retirar dessa história é a importância que Batman tem no mundo atual. Batman é quase perfeito. É um ser humano que atingiu um nível de habilidades tão grande que pode ser comparado a um deus. Se não fosse por Batman, o mundo seria ser um caos enorme. O próprio Clube dos Heróis só é um fracasso porque Batman não participa da iniciativa – se participasse, seria quase uma Liga da Justiça de humanos (analogia minha).
Esse arco é bem empolgante, como um livro de mistérios em que ficamos tentando descobrir quem é o culpado. A arte de John van Fleet, como sempre, é excelente. Os grandes quadros são de encher os olhos, e os ângulos que ele capta mostram sempre a importância do personagem naquela cena. As cenas de luta, o sombreamento, as técnicas que remetem à colagem, as referências artísticas, é tudo deslumbrante – não lembro de outra HQ igual a essa.

Legionário

008

O segundo arco vai precisar que você relembre os eventos da terceira história da HQ “Batman e Filho”.
Quando postei Batman e Filho optei por apresentar o roteiro de forma mais corrida para não confundir a cabeça de vocês (afinal, o conceito de “Três Fantasmas” daquele arco só será útil agora). Então vamos fazer uma revisão dos acontecimentos do terceiro arco daquela HQ.

[Atenção: esse trecho é uma análise da terceira história da HQ “Batman e Filho”]
Aquela saga, que recebe o nome de “Os Três Fantasmas de Batman”, nos conta que algumas garotas sendo mortas após terem marcado programas com policiais. Batman vai até o lugar onde elas estão desaparecendo, um obscuro prédio abandonado com corpos de prostitutas jogados, e dá de cara com um homem com uma versão alterada do uniforme de Batman – mas não é um homem, é um policial gigante, poderoso, duas vezes o tamanho de Batman, que o golpeia e deixa uma marca gigante de pé nas costas de Batman.
009Na segunda HQ, Morrison sugere que Batman se utiliza de compostos químicos para se manter na ativa. Isso o dá força física, mas como efeito colateral causa alucinações que beiram a esquizofrenia. Depois de apanhar demais do policial-gigante, Batman dorme (finalmente) e sonha com seu filho Damian em frente a três versões grotescas dele, com o seguinte recado: “Pai. O Terceiro fantasma é o pior de todos.” Batman desconfia que se trata de um arquivo que ele possui chamado “Casos Inexplicáveis” – situações em Gotham que envolvem eventos misteriosos como vampiros, fantasmas, discos voadores e viagens no tempo. Batman quer descobrir quem são esses três fantasmas dele mesmo: Um Batman assassino armado, um Batman bestial fortemente drogado, e o terceiro, ainda pior… Um Batman que vendeu sua alma ao demônio em troca da destruição de Gotham. Esses três fantasmas alteram a sanidade mental de Batman.
É Michael Lane, o Terceiro Fantasma, que está presente na elsewords de Batman #666, em um mundo apocalíptico destruído e moralmente questionável. O fim do mundo está batendo à porta de Gotham, devido ao pacto com o demônio realizado por ele. Batman é Damian Wayne, um Batman que mata, em meio a sacrifícios satânicos, heresias e um armaggedom iminente. O Terceiro Fantasma (ou Terceiro Homem) é demoníaco e perigoso.

Voltemos à análise desse segundo arco de “A Luva Negra”.

A primeira edição se chama “Medicina Espacial”. O Terceiro Fantasma (ou Sleeper) está fazendo um ataque à estação de polícia. Ele tem um grande poder de fogo, e a Polícia de Gotham não consegue detê-lo, e Batman chega para tentar impedir o pior (ele escapa quando estava saltando de paraquedas com Jezebel Jet) quando é brutalmente baleado no peito pelo Terceiro Fantasma.

012 Continuar lendo