#43 – Batman: Mais Sombrio que a Morte

Aproveitando a onda que peguei no último texto que fiz (Batman: Ankh), vou pegar outra história que saiu na “Batman Extra” aqui do Brasil, na número 3 para ser mais específico. Chama-se “Mais Sombrio que a Morte”, que miraculosamente saiu numa tradução fiel do original, que se chama “Darker than Death”.

Line201

Já dando uma prévia da obra total, tanto o roteiro quanto o desenho são ótimos. Não há necessidade de defender nenhum dos dois dizendo “a arte é diferente mas combina com a temática”, a arte é visivelmente boa, posso estar exagerando mas tem algo que faz lembrar Alex Ross, e o roteiro faz jus a arte que tem.
Não julgue o roteiro pelas primeiras páginas. O Bruce Jones foi um tanto “específico” ao citar músicas e cantores americanos fazendo referencia às cidades do país. Uma vez que estava falando pelo Bruce Wayne, fez parecer que o Batman é um fã assíduo de música, coisa que não me recordo de ter sido citado antes, e que se formos parar pra pensar… Não daria tempo. Mas em todo caso, as coisas melhoram após o primeiro papo com o Alfred na mansão.04 (2)
A arte está impecável desde o início. Como eu disse, carrega algo de Alex Ross, bastante realista, e o realismo também vai ao cinto de utilidades, que tem compartimentos grandes que cabem mais do uma caixa de tic-tac, como de costume, detalhe este que você também pode ver em traços do Bermejo e de alguns outros desenhistas que se preocupam um mínimo com a lógica de que o cinto de utilidades tem mais finalidades do que segurar as calças.

04A história começa com uma visão das ruas, com a “filosofada musical” que citei acima, mas a coisa só realmente engrena depois disso. A cidade está sob um blackout, e a história começa com um convite para um casamento. Bruce vai socialmente sob sugestão (leia-se: quase que obrigado) do Alfred. O casamento ia acontecer na mansão de outro ricasso das adjacências, mesmo durante o blackout. Chegando ao local, apresenta-se o dono da mansão, um tal de Billingsworth, e em seguida seu filho (que é o noivo do tal casamento), dizendo que a noiva sumiu. Quem a encontra? Claro, o Bruce. Mas não a encontrou sozinha. Lá estava sua irmã, que, como o próprio Bruce se referiu, é praticamente uma ninfa.

A mulher chama-se Lilith e é mais atirada que as teias do Homem Aranha, e conseguiu segurar o Morcego. Digamos que ele perdeu o casamento por uma boa causa – ficou bem ocupado… Mas o pobre bilionário (dá pra ser isso?) não teve a noite inteira de descanso, logo foi avisado de que a tal noiva do casamento (que ele viu umas horas antes) ainda não tinha aparecido para a cerimônia.

05 (2)Mas ao que deu-se a entender, o Bruce gostou MESMO da tal mulher, tornou-se super-protetor em… HORAS. Talvez você argumentaria dizendo “Ele é o Batman, ele iria proteger qualquer pessoa em perigo”, é, mas não a ponto de ficar ansioso e sentir que levou anos pra percorrer umas poucas quadras, sendo que a velocidade dele é absurda pra essas coisas. Mais uma faceta interessante de Bruce Wayne. O Morcego apaixonado.

08Contato dele com o Pinguim foi magnífico, muitas milhas aéreas ganhas pro Bruce Jones por isso. Foi interessante o Batman perguntar como o Iceberg tinha energia durante um blackout que toda Gotham apagou, e o Pinguim retrucar dizendo (corretamente) que apostava que o “bat-poleiro” também devia estar iluminado, onde quer que fosse. O final da confusão com o abajur caríssimo da Tiffany’s que o Pinguim tanto quis proteger de ser quebrado… No mínimo cômico, e muito inteligente. Batman entrou nessa história com um senso de humor bastante afiado por trolls.
09Entre interrogatórios, invasões, brigas e uns banhos de gordura… Batman se vê de volta na mansão do Billingworth, dessa vez fardado de morcego, sem festa, descobrindo alguns lugares a ir.

Depois das pancadas certas e acordos certos… O mistério começa a desabar em velocidade mach, é descoberto que a tal Lilith é mais errada do que uma simples ninfa das águas, ela não é irmã da noiva sumida, ela é MÃE da desaparecida. Lilith fora casada com um ricasso que ao morrer, deixou toda herança presa à filha. E o corpo que Bruce encontrou morto, dona dos dedos cortados durante toda história, é filha do mordomo dos Billingworth, que estava grávida do filho do Billingworth, que é o tal noivo que iria casar com a anoiva desaparecida (que não era a mãe de seu futuro filho).

05Uma confusão do baralho, apesar da trama ser relativamente manjada, foi bem feita e bem usada, já está melhor que os roteiros sem pé nem cabeça do Grant Morrisson, que no máximo deveria ter permissão pra escrever as histórias do Zé Carioca como “Morcego Verde”.

Por fim, Gordon ainda encontra o carro do Bruce com cabelos suspeitos dentro e vai falar com o próprio, e vemos um caso onde Bruce tenta uma “oferta” (leia como “pedido para continuar fazendo vista grossa”) em cima do Gordon, oferta essa que consiste em apresentar todos os sequestradores e de quebra inocentar o filho do Billingworth, tudo em uma só noite. Gordon foi hiper direto:

Bruce: É minha oferta. O que diz sua intuição agora?
Gordon: Ela me diz que em Gotham inteira só existe um homem capaz disso…. e você tem até o amanhecer para entrarem contato com ele.

Gordon

06No fim das contas, descobrem o corpo da empregada grávida morta nas águas, Batman descobre através de registros de ligações feitas por satélite a posição de uma cabana do Billingworth, e descobre o próprio ricasso Billingworth com a noiva sequestrada. O Morcego então fica então sabendo do passado sem vergonha de Lilith, junta os pontinhos, descobre qual foi o plano inicial, e vê que “Bruce Wayne” foi escolhido só por ser o ricasso mais próximo. Levou uma volta, e de quebra Lilith ainda juntou os pontinhos dela do lado de lá e descobriu a identidade secreta do Batman.

Tudo perdido? Não, ocorre um lance meio… Sinistro. Lilith já longe viajando de carro com o dinheiro do Wayne recebe uma ligação do próprio Bruce… [Alerta de spoiler! Se deseja ler, posicione seu mouse sobre esse texto].

14Coisa semelhante acontecem com certa frequência nas histórias do Batman, isso tirando a história em que o Alfred foi até um sujeito que queria negociar as evidências de que Bruce Wayne era o Batman, e no fim da história tudo indica que o Alfred o matou. Como sabem, o mordomo era espião sinistro quando mais novo.

Mas voltando ao Darker than Death… Esse desenhista argentino (Ariel Olivetti) já é velho no mercado, desde os anos 90 já desenha material pra DC e Marvel, quase que na mesma proporção pra ambos lados. X-men, Demolidor, Cable, Homem de Ferro, Hulk, Justiceiro, Namor, Thor… e pela DC bastante coisa da Liga da Justiça e algumas peças do Superman.

Ressalto essa descrição do Iceberg que o Pinguim fez: “Aqui é o clube Iceberg. É aqui que sofisticação e decadência convergem. É aqui que sexo e escravidão são a mesma coisa”.

13E para terminar, deixo uma frase do Batman, uma frase muito verdadeira:

“O lado engraçado das juras… Principalmente as feitas a si mesmo… É que elas podem se diluir por influência da presença de outrem. Mesmo quando essa presença está apenas dentro de você… Dando todo um novo rosto à noite mais escura”.

LineDown

Continuar lendo

Anúncios

#26 – Batman/Espantalho: Ano Um

“… E assim, professor, é como se treina um bando de corvos selvagens…e como se corrompe uma mente jovem e maleável. […] Foi o momento que aprendi – da minha própria bisavó – as duas forças mais poderosas na Terra… MEDO E CONTROLE! E que QUALQUER UM poderia usá-las.”

Olá!

Continuando com a postagem sobre os vilões do Homem-Morcego, hoje falaremos da complexa vida do doutor Jonathan Crane, um psicólogo de Gotham. Mas não um simples e pacato doutor. Ele é um médico alucinado e instável, é o homem por trás de um monstro que manipula drogas e táticas psicológicas para causar alucinações e medo aos seus inimigos.

A HQ de hoje é “Batman/Espantalho: Ano Um” (Year One: Batman/Scarecrow, roteiro de Bruce Jones e arte de Sean Murphy, julho/agosto de 2005)!

 Nessa HQ, conheceremos a história de um menino magrelo que mora no campo com sua avó, uma extremista religiosa. Abandonado pelos pais, o pequeno Crane é torturado por sua avó que o deixa para ser bicado por centenas de corvos treinados por ela para machucar.
Ele sofre bullying dos outros meninos por sua altura e por seus gostos.  Quando cresce, é demitido da escola em que ensina por sua fixação nos métodos de ensino que envolviam medo. Então, com o conhecimento que adquiriu sobre manipulação química e sobre psicologia, Jonathan Crane faz uma regressão até o nascimento para se vingar daqueles que o maltrataram.

Agora o Espantalho está espalhando o caos e o terror por Gotham, e é tarefa da Dupla Dinâmica parar esse lunático. (Note que aqui ainda temos a atuação de Dick Grayson como Robin). A tática usada por Espantalho é um “gás do medo”, capaz de causar alucinações nas pessoas fazendo-as enxergar aquilo que mais as assusta ou machuca. Quando captura seu pai, por exemplo, e o faz reviver o medo de insetos – fazendo com que ele enxergue o ataque lento de milhares de baratas subindo pelo seu corpo (eca!).  Sua própria máscara não é assustadora à primeira vista, mas quando combinada com a toxina gasosa que desenvolveu, transforma-se num horrível e assustador rosto disforme.

Contudo, ele é um vilão difícil de capturar, porque tudo que deixa nos cenários de seu s crimes é um punhado de palha. Além disso, quais seriam exatamente as vítimas dele? Matar por prazer, por dinheiro, ou matar por vingança? E “vingança” não é exatamente o que move Bruce Wayne para se tornar Batman?

Quais são, então, as diferenças entre Espantalho e Batman, se ambos se escondem através de máscaras para assustar? Com essas semelhanças, conseguirá Batman fazer Espantalho parar de espalhar o medo por Gotham City?

Descubra lendo essa fantástica HQ em duas edições!

A arte de Sean Murphy contribui para o clima tenebroso da obra, alterando os formatos quando a toxina de Espantalho está no ar. O roteiro de Jones não poupa reviravoltas e momentos intensos.

Boa leitura!

Continuar lendo