#98 – Gotham Central: Apagar das Luzes

Apresentei a pistola (RIP Chaves).
Começando sério agora, bom dia a quem se importa. Esse texto é sobre um dos maiores dilemas das histórias do morcego velho: a relação do Cavaleiro das Trevas com a polícia de Gotham.

Uma das coisas que me tornaram fã das histórias do Batman foram os dilemas. Dilemas tem pra dar e vender. O Batman tem seus dilemas com cada vilão, com cada herói… Tudo na história se faz pensar. São casos deveras originais em vista das condições apresentadas serem mais puxados ao “fantástico” do que a realidade, apesar de Batman ser um dos heróis mais realistas da DC.
O Batman em si é um dilema. É um personagem extremamente complexo, e isso serve de ponte para se criar argumentos de todo o tipo sobre todo tipo de situação, personagem ou grupo que o cerca numa história; por consequência, nem a galera que está do lado dele escapa da complexidade. Um dos dilemas mais antigos nas histórias do Batman, que provavelmente data quase da mesma época (se é que não no mesmo momento) em que o dilema com vilões começou, é o dilema com a polícia de Gotham. A HQ de hoje trata exatamente sobre isso. Sejam bem-vindos a: “Apagar das Luzes” (“Gotham Central #25: Lights Out“, roteiro de Greg Rucka e arte de Michael Lark, janeiro de 2005).

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1. Introdução: o Departamento de Polícia de Gotham
Quem está acostumado com os seriados onde a Tia do Bátima era a principal fonte de piadas em Gotham, lembra bem que havia um telefone vermelho tipo o das Meninas Super-Poderosas, pelo qual a polícia tinha uma linha direta com o a Dupla Dinâmica, que na época estava no ápice da tecnologia com seus Bat-escudos que dobravam igual papel e eram guardados dentro da cueca e tal. Mas aquilo é um tempo passado. No universo refeito lá pelos anos 70, a relação do Batman com a polícia ganhou uns rumos mais loucos que o Chapeleiro.

A questão que impera tanto pra polícia quanto para o povo de Gotham é “De que lado ele está?”. Há os policiais que acreditam que o Batman obviamente está do lado deles, há os que acreditam que o Batman bate nos vagabundos mas é tão louco quanto eles, e os que acham que o Batman é mais um vilão que dá um cacete nos demais apenas por questões pessoais. Ou por pura diversão, o que não deixa de ser uma questão pessoal.

Se a policia de Gotham lesse a HQ saberia que o Batman está do lado deles, mas como isso não é Deadpool e o 4th wall não pode ser derrubado nem pelo Bane virado numa mistura de Venom com Titan, Guaravita e o X-tudão do Chico Dorme-Sujo, a polícia não lê e não sabe. Mas falando sério, temos que levar em consideração a VISÃO que os policiais teriam.

Eles não fazem ideia de quem o Batman é, do que aconteceu a ele, o tanto que ele treinou e estudou, sabem que ele tem mania de fazer o impossível e que é extremamente capacitado no que faz, mas não sabem até onde é sorte e até onde é técnica. Não fazem ideia dos conhecimentos, não fazem ideia da história, não fazem ideia de como ele some e aparece. Eles não sabem NADA sobre o Batman.

A visão deles é basicamente: Um sujeito vestido de Morcego que aparece do nada, cobre todo mundo de porrada e some. Ponto. Não sabem os motivos, não sabem o que ele passa, não veem os ferimentos dentro da roupa, muito menos os ferimentos dentro da alma. É só um homem de preto varrendo tudo com os punhos.

Primeira página da HQ “Detective Comics 27: The Bat-Man: ‘the Case of the Chemical Syndicate'”

Vou dar um exemplo infeliz. Tem alguma cidade aqui no Brasil que há uns anos atrás tinha um motoqueiro fazendo justiça com as próprias mãos pelas noites da cidade dele. Só que esse andava com uma arma e dava tiro nos bandidos na rua e sumia. Sei lá se quem conhece o cara e sabe que ele era o tal motoqueiro entendem as razões dele e o consideram um Frank Castle. Pra uma boa porcentagem da população, e principalmente para a POLÍCIA ele pode ser outro bandido matando rivais.

O dilema “Batman x Policia” parte muito disso. Um civil qualquer não tem permissão pra fazer maior parte do que o Batman faz pra capturar vagabundos. Logo, se ele faz coisas não permitidas, ele tá meio que no mesmo barco dos vagabundos. ISSO É TEORIA, eu adoro Batman, acho que não preciso lembrar a ninguém disso. É só algo a se considerar no assunto.

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#97 – Mulher-Maravilha: Hiketeia


“Venho me oferecer
Em súplica,
A ti, minha ama.
Venho sem proteção.
Venho sem alternativas.
Sem honra, sem esperança.
Sem nada além de mim mesma
Para implorar tua proteção.”


Olá, queridos!
Que sumiço esse que eu dei, né? Mas tenho boas justificativas pra ele, então vou atualizar vocês sobre a minha vida nos últimos meses!
Me formei na faculdade. Agora sou oficialmente bacharel e licenciada em História pela Universidade de São Paulo, olha só! E agora sou oficialmente professora de ensino fundamental e médio na rede pública de São Paulo. Isso significa que agora tenho cerca de 300 pestinhas lindos para educar e ensinar História.
Então peço que me desculpem essa autoria relapsa e continuem a acompanhar o Batman Guide de onde paramos – e falta tão pouco para chegarmos ao reboot!

O post de hoje é sobre uma HQ muito famosa, que tem uma capa magnífica desenhada pelo igualmente magnífico Alex Ross. E é sobre ela que vamos falar hoje. Sejam bem-vindos a: “Mulher-Maravilha: Hiketeia” (Wonder Woman: The Hiketeia, roteiro de Greg Rucka e arte de J. G. Jones, 2002.) E no fim do post tem uma surpresa para vocês!

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Em primeiro lugar, muitos de vocês vão me perguntar: “Mas Mulher-Maravilha? Esse blog não é sobre Batman?”, e talvez até achem que essa ausência do blog comprometeu minhas faculdades mentais (que, veja lá, nunca foi das mais sensatas). Mas eu explico: a DC Comics tem aquilo que chamamos de “Trindade”, o carro-chefe das publicações que é formado pelo Superman, pelo Batman e pela Mulher-Maravilha. Teoricamente era para Superman ser o mais importante, mas nos últimos anos Batman vem sendo o personagem mais trabalhado – o que gera críticas por parte de alguns fãs de Batman acerca do exagero no Bat-mito e na superexposição do personagem de Batman. Tem até um meme sobre isso: “Justice League? More likely Batman and his bitches.

Trinity

Ok, voltando: esses três personagens, juntos, protagonizam alguns dos mais célebres arcos disponíveis na cronologia da DC Comics. A Mulher-Maravilha, que é a protagonista do post de hoje, sempre teve uma relação bastante única com Batman, de ódio e respeito mútuo. Você pode perceber isso pela capa – Mulher-Maravilha pisando no rosto de Batman.
Então, já que se trata de uma personagem tão importante, vamos começar falando sobre a sua história, a sua origem.

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Em 1940, o o desenhista William Moulton – conhecido popularmente como Charles Moulton, estava disposto a criar uma nova personagem para as novas companhias que formariam a DC Comics. Recebeu de sua esposa a sugestão de criar uma super-heroína do sexo feminino. Essa nova personagem seria de um tipo diferente: ela não triunfaria pela força, mas pela compreensão e pelo poder.
O mais interessante de tudo é o seguinte: William Moulton Marston era um psicólogo que tinha um projeto com uma espécie de polígrafo – popularmente conhecido como “detector de mentiras” – que utilizava a pressão sanguínea para examinar os prisioneiros de guerra germânicos. Essa experiência com o polígrafo mostrou para Marston que as mulheres eram mais confiáveis e honestas que os homens e poderiam trabalhar com mais eficiência.
Nessa reportagem do NYSun, diz-se que Marston afirma sobre Mulher-Maravilha: “A Mulher-Maravilha é o símbolo do novo tipo de mulher que deveria dominar o mundo, em minha opinião.”
Inicialmente, a Mulher Maravilha era uma Amazona Campeã que ganhou o direito de remover o oficial americano Steve Trevor de volta ao mundos dos Homens (o avião dele se chocara contra sua Ilha paradisíaca), e de lutar contra o crime dos nazistas. Ela se disfarçava de secretária, e nesse período, ela integrou a Liga da Justiça Americana como a secretária do time.

Primeiro quadrinho
Diana digita na velocidade da luz!
Chefe: (Pensando) “Os dedos dessa garota se movem tão rápido que mal consigo vê-los! Mas dessa forma, ela vai acabar cometendo vários erros!”
(Em voz alta): “Vá devagar, eu não tolero erros de digitação!”

Segundo quadrinho
Chefe: Inacreditável! Eu jurava que você não anotou metade do que eu ditei, mas essa carta… Está perfeita!
Mulher-Maravilha: (Pensando) “Tenho que ser cuidadosa para não dar na cara… Eles não treinam as garotas aqui para ter memórias perfeitas como as nossas!”

Durante a Era de Prata, a origem de Mulher-Maravilha foi reformulada para um elemento mais mitológica: recebendo a benção da deidade Athena em seu território só de Amazonas, Themyscira. Ela estava destinada a ser bela como Afrodite, esperta como Athena, forte como Hércules e rápida como Hermes.

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#80 – Batwoman: Elegia (“Batman: Renascido” – 1ª Parte)

Reborn

“O morcego que eles iluminam no céu… Civis pensam que é um pedido de ajuda. Os caras maus pensam que aquilo é um aviso. Mas é mais do que isso, é algo maior. É um chamado pro exército. Eu encontrei meu jeito de servir. Eu finalmente encontrei meu jeito de servir.”

Nana nana nana nana Bat… woman? Olá, pessoas que gostariam de ser cidadãos de Gotham (ou não). Esse aqui não é sobre o Batman ou algum de seus bat-filhotes. Esse post é sobre a saga “Elegy” da Batwoman, que foi publicada na Detective Comics americana ANTES do reboot.
Muita gente acha que a Batwoman apareceu só após o reboot, mas antes disso ela deu seus pitacos no universo morcego ajudando o Dick e Damian (na época como Batman e Robin) a tentar ressuscitar o “finado” Bruce, e como eu disse, também tinha o lançamento dentro da Detective Comics.
Quem prestar atenção em que revistas estou citando, histórias e época, claro que perceberá que estou falando da NOVA Batwoman. A primeira Batwoman foi da época do onça, usava um maiozão amarelo e uma máscara que fazia lembrar a do Wolverine. O nome era praticamente o mesmo, a temática que era diferente. Até porque, se tivessemos uma Batwoman lésbica naquela época a DC teria ido a falência, isso se nao fosse fechada pela censura.
Bom, vamos a Batwoman que importa, Katherine “Kate” Kane.

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001Essa história conta com roteiro do Greg Rucka, nome que já é familiar como componente de diversos arcos importantíssimos das demais histórias do Batman, como por exemplo “Terra de Ninguém” e “Assassino? / Fugitivo”.
Na arte temos J. H. Williams III. Não conheci os dois antecessores, mas em todo caso esse ai já é suficiente. E isso deve ser opinião de mais gente, pois até hoje o homem é o desenhista da série. Isso não é tão “simples” quanto parece. Se for comparar com os demais títulos da DC, vão ver que aproximadamente a cada 1 ano (isso se tivermos sorte de durar tanto) mudam a equipe das histórias, e geralmente é sempre o desenhista.
Por exemplo o Tony Daniel. Desenhava a série mensal do Batman, passou pra Detective Comics após o reboot, e após alguns números saiu dos títulos do morcego e está na Action Comics do Superman. A série “The Dark Knight” começou sendo desenhada pelo David Finch e após uns 15 números é do Ethan Van Sciver. As da Batgirl começaram com Ardian Syaf, depois Ed Benes, Alitha Martinez e Daniel Sampere. E o titulo da Batwoman, antes do reboot (saga Elegy) e pós-reboot (até o momento 3 sagas), teve J. H. Williams III na arte e/ou nos roteiros.
020Há um detalhe interessante na arte desse cidadão. Quando é pra desenhar Kate sem o uniforme… Ele desenha se uma forma até simplista demais, uma rockabilly pálida, porém quando a desenha com o uniforme de Batwoman, parece que brota uma imponência do além e o desenho fica com cara de obra de arte. Como é de se deduzir, o uniforme dela tem aparência de latex, aquele tecido liso, preto e brilhoso, e você quase pode imaginar a textura ao olhar para os traços.
Se você não conhecer a história e primeiro ver a Batwoman antes de ver a Kate, vai imaginar que aquela cabeleira vermelha é dela e que a pele branca é maquiagem… Mas é o contrário, o cabelo que é peruca e a tonalidade da pele que é real. O cabelo natural dela também é vermelho, mas é curto e com franjinha. Sinceramente, a aparencia da Kate não me agrada muito, escolho eternamente a aparencia da Bárbara, mas a aparência de Batwoman, como eu disse, é imponente.
Outro detalhe sobre ele é a maneira única de arrumar os quadros das histórias. Para marinheiro de primeira viagem é MUITO fácil se perder ou acabar deixando algo passar. Às vezes parece que os quadros tem o cenário de dentro E papel de parede pros próprios quadros por fora. Tem quadros formando morcegos, quadros acompanhando ondulações, quadros divididos em vários pedaços como se fosse um espelho quebrado… Como eu disse, às vezes atrapalha, mas não posso dizer que não é original e bem feito.
A saga Elegy ao mesmo tempo que mostra um caso “atual” também muito do passado de Kate Kane. Ela testando o uniforme pela primeira vez, o primeiro encontro com o Batman, coisas da infância e adolescência, um prato cheio pra quem quer conhecer melhor a personagem.
Quanto ao roteiro de Greg Rucka… Lá vamos nós, darei uma narrativa da história.

002Começamos com Batwoman em algum dos lendários cantões obscuros de Gotham, tentando um interrogatório. Quando vemos o Batman fazendo isso, é algo “Eu te quebro ou eu te quebro, decide o nível da minha raiva”. Quando é o Asa Noturna, é algo com piadinhas que envolvem a saúde do criminoso, Batgirl interrogando é meio “inocente demais” até…Mas Batwoman… O interrogatório dela é meio doente, em meio a sorrisos, coisas ameaçadoras como pé na garganta e de repente um carinho acolhedor meio maníaco tipo “PASSE A LOÇÃO!” do Silêncio dos Inocentes.
O besta passa as informações, Batwoman sobe aos telhados como boa morcega que é, e lá topa com quem? Seu muso-inspirador, o morcego-mor, Batman. Ele que dentre todos os 70 estilos de luta e mestrado em todos os setores de humanas e exatas que tem nesse planeta não aprendeu muito a conduzir uma conversa de forma simpática, já se lançou ao que interessava. Crime. Alguma mulher era a nova chefe, eles tinham que chegar lá. Batman deixou a responsabilidade para ela em um gesto de confiança, mas deixou um aviso. “Dê um jeito no seu cabelo. Um puxão e a luta está acabada”.
Após isso a heroína volta pra sua casa, que não é a mansão Wayne mas também não é o apartamento do Peter Parker. Toma um banho, e tenta dormir. O dia seguinte (que na verdade ainda é o dia em que ele tentou ir dormir) inevitávelmente chega, ela se atrasa pro encontro com Anne, sua namorada (século XXI, uhul), que fica nervosa pelo atraso, diz que pela cara dela nem teve um “acordar atrasada” e que na verdade ela nem deve ter dormido.
Rola uma discussão (monólogo de Anne) dizendo que Kate é mimada, tem todo mundo como garantido, que ainda precisa crescer e blablabla… Confusões de gente que tem identidade secreta de vigilante pelas noites de Gotham. Vida de cão, hein?
003Quadros seguintes temos Kate em casa com seu pai que, cá entre nós, é um baita esquisito, e até o momento aparenta ser um militar de patente relativamente alta, mas enfim, Kate começa a malhar levantando ferro pra valer, negócio não é um saco de cimento nem um alteres padrão, o negócio é barra pesada mesmo, pelo que vi no desenho, se não me enganei, são 50kg de cada lado. Somado é mais do que meu peso. Não que eu entenda de o que é peso padrão e o que não, well, deixa pra lá.
Papai Kane fica preocupado com sua filhota, então os roteiros nos mostram que Kate há algum tempo foi esfaqueada no coração, que quase morreu, que ficou apavorada e etc, e entendemos mais uma parcela do que a faz sair de noite vestida de Morcego.
004Podemos ver que o coronel é o Alfred da Kate. Não tão eficiente, mas ainda assim o papel é semelhante. Não demora muito e vemos uma cena que não se passaria na terra dos Wayne… O papai dá uma arma carregada pra Kate se defender, ela aceita e diz que sabe como usar e etc. Dá um leve choque, aposto que ninguém está acostumado a morcegos com armas (esquecendo o Jason, por um instante).
Lembram das organizações loucas de quadros que falei? Temos um ótimo exemplo agora. Uma página dupla com várias tirinhas retangulares na vertical, uma em paralelo a outra, e embaixo um quadro que tem formato de morcego, e fora dos quadros também há coisas se puderem notar. Não dá pra se perder, é bonito, bem feito e original. A seguir outra página dupla, Batwoman dando um chute duplo no ar, coisa de Asa Noturna, mas o chute dele teria mais elasticidade, seria algo mais “Van Damme” no Dragão Branco, mas vá, nenhum de nós daria um chute desses.
005Ela começa o interrogatório no local, e acaba descobrindo que o que ela queria estava exatamente ali. Uma branquela igual a ela, só que mais louca e com um batom estilo Rainha Amigdala do Star Wars. O nome dela é Alice, ou pelo menos é assim que ela se auto-denomina, pois ela parece achar que É a Alice do País das Maravilhas. Batwoman nem entra direito na conversa e aponta a pistola pra cara da moça.

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#70 – Batman: Morte e as Donzelas

“Eu sou a filha de meu pai, detetive. O legado dele é meu agora, e o que faço, faço por ele… E por um bem maior. Não é exatamente isso que você faz, detetive? Um trabalho em memória de seus pais? Não é essa a razão de sua existência?”

Olá! Sentiram minha falta? Finalmente estou de férias!
A HQ de hoje insere-se em um ponto anterior da cronologia, antes da saga “Jogos de Guerra”, não lembro porque ainda não tinha colocado antes (desculpem!). Mas de qualquer forma isso não tem uma implicação maior para o entendimento de vocês, porque é uma minissérie foras das séries regulares de Batman, então não tem problema nenhum ser lida agora.
A leitura de hoje é “Batman: Morte e as Donzelas” (Batman: Death and the Maidens, roteiro de Greg Rucka e arte de Klaus Janson, outubro de 2003 a agosto de 2004)!

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Arte de PJ Lynch

Antes, uma pequena nota: o conceito de “Death and the Maiden” é um padrão encontrado nas artes do período Renascentista. Ele deriva das alegorias de “Dance of Death” (Dança da Morte) do período medieval, que retratam a universalidade das pessoas em seu derradeiro momento – todos somos iguais na morte, todos enfrentaremos os mesmos terrores numa dança macabra. A vida é frágil e passageira, e chega para todos.
A Morte e as Donzelas é um conceito bastante explorado em diversas artes: é o nome de uma pintura de Hans Baldung, Egon Schiele, Edvard Munch, de composições de Franz Schubert, um balé de Nikos Skalkottas, um filme de Roman Polanski, dá nome à biografia de Fanny Wollstonecraft, ao livro de Gladys Mitchell, e mais incontáveis referências.

001A HQ começa com um tenente notificando uma jovem mulher a respeito da morte de Vasily Vasilievich, que supõe ser seu marido. Ele morreu corajosamente numa explosão. A jovem ri debochadamente do tenente. Não… Ele não era seu marido. Tampouco seu irmão. Era seu bisneto. Seu último descendente.

002Os momentos de reminiscência de Batman, quando se lembra do fatídico dia em que perdeu tudo o que mais amou na vida através do cano da arma de um bandido, são sempre notáveis. Não poderia ser diferente aqui. Aqui, ele divaga sobre o fato de já fazer tanto tempo que aconteceu que ele está tendo dificuldades de lembrar do rosto de sua mãe. Me lembrei dos trechos iniciais de um dos meus livros preferidos, “A Sombra do Vento”, de Carlos Ruiz Zafón, em que o personagem principal percebe que a memória do rosto de sua mãe está se esvaindo. Bem, Batman é acordado por Alfred. Mais um dia em que é preciso salvar Gotham.
003Encontramos a mesma mulher do começo da história, mas há dois anos atrás. Descobrimos que se chama Nyssa. Ela está conversando com Ra’s Al Ghul, que conta sobre sua relação com Batman – tentara fazer dele o herdeiro de sua posição como Cabeça do Demônio, já que ele é o único ser humano digno de ocupar tal posição. Mas não só Bruce recusa como se torna seu pior inimigo, lutando contra ele e interrompendo a criação dos Poços de Lázaro nos lugares de grande concentração mística que seriam perfeitos para Ra’s. Ela ganhou um Poço de Lázaro dele (agora entendemos o diálogo inicial dessa HQ). Mas por que ele está contando essas coisas tão pessoais para ela? Ele precisa de sua ajuda – coisa que ele se nega a fazer. Nunca devemos subestimar alguém a quem o poderoso Ra’s Al Ghul recorre. Essa pessoa provavelmente dona de um grande poder.
004Para comprovar minha tese, vemos Ra’s Al Ghul recorrendo a Batman – invadindo a Batcaverna, na verdade. Poucas pessoas conseguem invadir a Batcaverna. Sabemos do incalculável arsenal militar e tecnológico de Ra’s – mas ainda assim, tenho minhas dúvidas se seria possível invadir a Batcaverna. Mas ENFIM, ele conseguiu. E pede a Batman um favor bastante precioso: que pare de matá-lo. Que o deixe construir seus poços, e assim macular o curso da natureza. Isso está fora de cogitação para o detetive, mas Ra’s oferece algo bastante único para Batman: um elixir alquímico capaz de conectar Batman aos mortos. Aos seus pais. A tentação mais antiga do homem: falar com os mortos. Encontrar os espíritos uma vez mais, depois de sua partida.

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Mas é realmente possível confiar em Ras? A proposta deixa Batman muito tentado. Reencontrar seus pais… Ver o rosto de sua mãe uma vez mais… Bruce toma sua decisão. E o desenrolar da decisão que toma é emocionante.
Ao longo da história, vamos conhecendo a história de Nyssa. Ra’s Al Ghul não aceitou o desacato que a mulher lhe fez, e planeja uma grande represália para ela. Nyssa conhece Talia em seu apartamento. E também vai até Batman, para alertá-lo das terríveis intenções de Ra’s. A mãe de Nyssa e Ra’s já tiveram um relacionamento, mas ela questionou seus métodos sanguinários que ele justificava como sendo para um “bem maior”. E assim surge Nyssa na vida de Ra’s Alghul. Toda a história de Nyssa está permeada com intervenções impiedosas de Ra’s. Ele parece não se importar com os mortos que deixa pelo caminho.
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Ela o encontra no fim de 1790. Ele a mata a primeira vez em 1794. Em 1941. Em 1945, num campo de concentração para mulheres. Em 1952. Matou a ela incontáveis vezes, e matou a seus filhos, netos e bisnetos – todos os que Nyssa já amou, incluindo sua própria mãe. Ela sequestra Talia. Uma vez. E mais uma vez. E de novo. Usando o Poço de Lázaro como instrumento. Para prepara sua vingança. As duas irmãs precisam se vingar. Receber a redenção pelas dores de seu passado. Mas qual o preço dessa redenção?

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#39 – Batman/Caçadora: Legado de Sangue

Ufa!
Consegui um tempo para vir escrever aqui. Fim de semestre na faculdade é sempre a mesma coisa, o mesmo desespero para terminar os trabalhos, não importa se você está no primeiro ou no terceiro ano. Odeio ficar ser tempo para escrever para o blog. Mas em parte isso é minha culpa, porque simplesmente não consigo levar quinze, trinta minutos apenas para escrever. Gosto de escrever os textos com atenção, pesquisar bastante, achar as melhores imagens e as melhores scans para o Batman Guide. Mas sorte que daqui a duas semanas acabam minhas aulas e também começam minhas férias, daí poderei postar com a regularidade que eu costumo aqui no blog e também fazer os especiais temáticos que venho planejando – e também sortear algumas coisinhas para vocês 🙂

Hoje falaremos da Caçadora, e de sua história. A primeira vez que li essa minissérie fiquei realmente impressionada, ela é muito bem escrita e deixa transparecer toda a intensidade dessa personagem. É uma história de vingança, de justiça… É uma história escrita com sangue.

A HQ de hoje é “Batman/Caçadora: Legado de Sangue” (Batman/Huntress: Cry for Blood, roteiro de Greg Rucka e arte de Rick Burchett, 2000)!

Durante toda a história o que mais me chamou atenção foram os complexos conflitos internos da personagem Helena Bertinelli. Ela conta sua história de luta e vingança, de como lidou com a morte quando ainda não tinha idade para compreender que os responsáveis por sua tragédia estavam mais próximos do que ela imaginava. Sua busca por justiça fez com que muitas vezes ela ultrapassasse as linhas do bom-senso e incorresse na vingança. Ela tem seus próprios motivos para desejar tanto assim se vingar.

Ela nasceu numa das mais poderosas famílias da máfia italiana. Mas essa família tinha sérios problemas internos, de relacionamento, e como vingança sua família foi assassinada na sua frente, durante um jantar. Ela foi a única poupada, e foi enviada aos Estados Unidos para ser criada pelo que lhe restara da família. Lá recebeu treinamento de seu primo Sal para responder ao “chamado do sangue.” E volta para Gotham para cumprir a promessa de exterminar aqueles que foram responsáveis pelo assassinato brutal da sua família. Para ganhar a vida, é uma pacata professora. Mas para cumprir a promessa que fizera, se torna a Caçadora.
E é justamente o fato de ela ter motivos para se vingar que acaba recaindo sobre ela a culpa de um misterioso assassinato, que é o ponto inicial da nossa HQ. Dois mafiosos aparecem mortos em Gotham. E com um “simples” agravante: foram mortos com uma flecha igual à que Caçadora usa.

Uma matéria totalmente incoerente sobre Caçadora é publicada no jornal, e ela decide ir tirar satisfações com a jornalista. E a encontra morta, o corpo ainda quente trespassado com, novamente, duas flechas iguais às que usa. Alguém estava tramando para ela.

Para Batman e Dick Grayson ela diz ser inocente, mas diante de tão fortes evidências fica quase impossível acreditar que ela não esteja envolvida no caso. E acaba disparando uma flechada acidental em Batman, perdendo a sua confiança e a de Asa Noturna. Ela está sozinha. O iniciante Tim Drake desconfia que ela não tenha culpa, mas não pode fazer muita coisa na reclusão da Batcaverna. O único que parece acreditar nela é o misterioso Questão, um homem sem rosto que cruza seu caminho e para quem ela acaba contando toda a história da sua vida.

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#15 – Batman: Equilíbrio & Batwoman #00

Olá!
Essa postagem demorou um pouco porque estive pensando em qual HQ postar, em nossa sequência “parceiros do Batman”. E decidi fazer algo diferente: postar duas HQs diferentes hoje.
Trataremos de dois personagens importantes. O primeiro você já conhece de outros carnavais em Gotham City: o mordomo que cuida de Bruce Wayne com zelo desde que ele perdeu seus pais, Alfred Pennyworth. E na segunda, falaremos de Kate Kane, a Batwoman – que utiliza métodos com os quais Batman não concorda plenamente.

#1 – Batman: Equilíbrio
(Batman: Legends of the Dark Knight Vol 1 #118 – “Balance”, junho de 1999, roteiro de Greg Rucka e arte de Jason Pearson)

Nessa HQ, temos Alfred narrando um “conto” a algumas crianças – e é um conto que ele mesmo protagoniza. O que ele conta às crianças é a de um fiel escudeiro esperando pelo retorno de seu nobre cavaleiro. Mas essa história é uma metáfora para o momento em que Batman e Robin precisam fazer uma longa viagem de três meses e deixam Gotham aos cuidados de Alfred – o mordomo fiel aos pais de Bruce e que continua seu trabalho na casa ao longo dos anos, observando o crescimento de um homem empenhado em fazer justiça. Nesse período de três meses, o mordomo se empenha em reunir informações úteis, gerar entretenimento para as pessoas e cuidar da população desamparada que Batman precisou deixar para trás. E isso inclui distrair pessoas com suas habilidades teatrais, salvar bebês e liberar um grupo de pessoas que estava sendo escravizada.
Essa edição se chama justamente “Equilíbrio” porque nela podemos perceber a relação existente entre Alfred e Batman: a de cavaleiro e seu fiel escudeiro, que nunca o abandona, seja para curar as feridas provocadas por estilhaços ou por dar-lhe uma bronca porque não anda dormindo o suficiente. Eles se equilibram e contrapõe o que falta um no outro.

No fim da HQ, temos o retorno oportuno de Batman, na hora certíssima para evitar que alguma coisa muito ruim acontecesse a Alfred. E percebemos que o Cavaleiro das Trevas não conseguiria proteger os cidadãos de Gotham sem seu fiel ajudante, um velhinho com metade do seu tamanho, mas com bravura o suficiente para dois batalhões.

#2 – Batwoman #00
(Batwoman #00, roteiro de Haden Blackman e arte de J. H. Williams III, 2010)

Kate Kane é uma socialite demitida do serviço militar por ser lésbica. Em um encontro casual, depara-se com Batman – e encontra uma nova vocação na vida, ser a Batwoman.
A HQ de hoje faz parte dos Novos 52 (acalme-se, vai ter um post explicativo sobre isso em breve), e ela apresenta a personagem sem um roteiro muito aprofundando: temos Bruce Wayne se fantasiando de várias formas diferentes para descobrir se Kate Kane é, de fato, a Batwoman. Mas essa suposta simplicidade de roteiro não é um ponto fraco na obra: você vai descobrir a arte de J. H. Williams III, que é uma das coisas mais sensacionais que estes meus olhos míopes tiveram o prazer de ver.

Apesar de eu tê-la incluído no hall de “parceiros do Batman”, não é exatamente assim que funciona porque, para Batwoman, ele não passa de uma inspiração. Ele não é uma obsessão, não é um amor platônico, um tutor, um inimigo mortal com quem disputa ou seu escudeiro; tampouco ela foi treinada por ele, ou recebe algum tipo de apoio. Ela é uma mulher forte, independente, disposta a praticar a justiça & combater o crime da forma que ela mesmo crê ser certa, com financiamento próprio.  Isso, claro, não implica que ela seja perfeita: Batman vai descobrindo seus erros, alguns pontos a serem melhorados nela.

Em resumo, essa HQ vai introduzir essa personagem de uma maneira forte e incisiva, e você via descobrir melhor quem é essa ruiva forte que empenha seus dias em proteger Gotham City da maneira que sabe e que acredita ser justa.

Baixe as duas HQs, são curtas – você vai ler bem rápido e ainda vai se surpreender com a arte de Batwoman.

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