#98 – Gotham Central: Apagar das Luzes

Apresentei a pistola (RIP Chaves).
Começando sério agora, bom dia a quem se importa. Esse texto é sobre um dos maiores dilemas das histórias do morcego velho: a relação do Cavaleiro das Trevas com a polícia de Gotham.

Uma das coisas que me tornaram fã das histórias do Batman foram os dilemas. Dilemas tem pra dar e vender. O Batman tem seus dilemas com cada vilão, com cada herói… Tudo na história se faz pensar. São casos deveras originais em vista das condições apresentadas serem mais puxados ao “fantástico” do que a realidade, apesar de Batman ser um dos heróis mais realistas da DC.
O Batman em si é um dilema. É um personagem extremamente complexo, e isso serve de ponte para se criar argumentos de todo o tipo sobre todo tipo de situação, personagem ou grupo que o cerca numa história; por consequência, nem a galera que está do lado dele escapa da complexidade. Um dos dilemas mais antigos nas histórias do Batman, que provavelmente data quase da mesma época (se é que não no mesmo momento) em que o dilema com vilões começou, é o dilema com a polícia de Gotham. A HQ de hoje trata exatamente sobre isso. Sejam bem-vindos a: “Apagar das Luzes” (“Gotham Central #25: Lights Out“, roteiro de Greg Rucka e arte de Michael Lark, janeiro de 2005).

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1. Introdução: o Departamento de Polícia de Gotham
Quem está acostumado com os seriados onde a Tia do Bátima era a principal fonte de piadas em Gotham, lembra bem que havia um telefone vermelho tipo o das Meninas Super-Poderosas, pelo qual a polícia tinha uma linha direta com o a Dupla Dinâmica, que na época estava no ápice da tecnologia com seus Bat-escudos que dobravam igual papel e eram guardados dentro da cueca e tal. Mas aquilo é um tempo passado. No universo refeito lá pelos anos 70, a relação do Batman com a polícia ganhou uns rumos mais loucos que o Chapeleiro.

A questão que impera tanto pra polícia quanto para o povo de Gotham é “De que lado ele está?”. Há os policiais que acreditam que o Batman obviamente está do lado deles, há os que acreditam que o Batman bate nos vagabundos mas é tão louco quanto eles, e os que acham que o Batman é mais um vilão que dá um cacete nos demais apenas por questões pessoais. Ou por pura diversão, o que não deixa de ser uma questão pessoal.

Se a policia de Gotham lesse a HQ saberia que o Batman está do lado deles, mas como isso não é Deadpool e o 4th wall não pode ser derrubado nem pelo Bane virado numa mistura de Venom com Titan, Guaravita e o X-tudão do Chico Dorme-Sujo, a polícia não lê e não sabe. Mas falando sério, temos que levar em consideração a VISÃO que os policiais teriam.

Eles não fazem ideia de quem o Batman é, do que aconteceu a ele, o tanto que ele treinou e estudou, sabem que ele tem mania de fazer o impossível e que é extremamente capacitado no que faz, mas não sabem até onde é sorte e até onde é técnica. Não fazem ideia dos conhecimentos, não fazem ideia da história, não fazem ideia de como ele some e aparece. Eles não sabem NADA sobre o Batman.

A visão deles é basicamente: Um sujeito vestido de Morcego que aparece do nada, cobre todo mundo de porrada e some. Ponto. Não sabem os motivos, não sabem o que ele passa, não veem os ferimentos dentro da roupa, muito menos os ferimentos dentro da alma. É só um homem de preto varrendo tudo com os punhos.

Primeira página da HQ “Detective Comics 27: The Bat-Man: ‘the Case of the Chemical Syndicate'”

Vou dar um exemplo infeliz. Tem alguma cidade aqui no Brasil que há uns anos atrás tinha um motoqueiro fazendo justiça com as próprias mãos pelas noites da cidade dele. Só que esse andava com uma arma e dava tiro nos bandidos na rua e sumia. Sei lá se quem conhece o cara e sabe que ele era o tal motoqueiro entendem as razões dele e o consideram um Frank Castle. Pra uma boa porcentagem da população, e principalmente para a POLÍCIA ele pode ser outro bandido matando rivais.

O dilema “Batman x Policia” parte muito disso. Um civil qualquer não tem permissão pra fazer maior parte do que o Batman faz pra capturar vagabundos. Logo, se ele faz coisas não permitidas, ele tá meio que no mesmo barco dos vagabundos. ISSO É TEORIA, eu adoro Batman, acho que não preciso lembrar a ninguém disso. É só algo a se considerar no assunto.

O Batman defende a cidade como bem quer. Há diversas histórias onde ele se refere a Gotham como sendo dele. Em muitos casos o “minha cidade” não quer dizer “cidade onde vivo”, mas sim “cidade que é minha”. Vá, a família do homem fez o que a cidade é hoje, e o Batman foi quem a manteve de pé e reconstruiu quando ela caiu. Digamos que por mérito ele tenha licença de dizer isso.

Só que, como falei antes, ninguém sabe desses detalhes, só nós que lemos. Acha que alguém sabe que o Batman injeta milhões na cidade, reconstrói as coisas e etc? É só o homem que aparece do nada, dá porrada em todo mundo e some.

Não é a toa que o Darkseid considera o Batman o humano mais perigoso do universo. Acham que se o Batman quisesse tomar a cidade ele não tomava? Esse é o conceito do problema do Lex Luthor com o Superman. E se aquele poder absurdo sair do controle? O Superman é um perigo em potencial. Nada impede de policiais ou cidadãos verem o Batman assim, como um inimigo em potencial. Se o Morcego sair do controle, quem vai segurar? Algo tão “acima” desse jeito causa medo quando você não sabe qual é a proposta, quando você não conhece.

Tecnicamente, essa é a proposta do Batman. Ser tipo uma lenda do terror, que ninguém está preparado pra encarar, que ninguém nunca sabe quando vai encarar. Batman inspira medo. Essa sempre foi a ideia.

Com o tempo, Batman e Gordon se aproximaram mais como “parceiros”, e ai nasce outra relação super interessante para a história. Pois o Gordon não tem medo do Batman, não o considera acima de nada. Quantas mil vezes já vimos o Gordon dizer que o dia em que o Batman sair da linha, ele mesmo (Gordon) iria atrás dele? Claro que a relação deles não é simples assim. Quantas vezes o Batman salvou a vida do Gordon, quantas vezes ele salvou a cidade e o Gordon viu? Quantas vezes ele salvou pessoas e o Gordon estava presente? O Gordon sabe qual é a do Batman, mas isso não quer dizer que o resto da corporação saiba.

“Ah mas era só o Gordon contar!”. É. Imagina que você acredita que o INRI Cristo é mesmo Jesus. Você tem isso como verdade assim como o Gordon sabe que o Batman é do bem. Agora vai você pro seu trabalho/escola convencer os outros disso. Assim é o Gordon e o resto de Gotham. Assim somos todos nós com nossas crenças. Adianta? Não.

Após o evento “Jogos de Guerra”, onde o Batman literalmente guia a policia seguindo os passos de um plano dele que estava falho e ele não sabia, toda a confiança que havia foi por água abaixo. A culpa foi da Stephanie Brown (Salteadora na época, e posteriormente Batgirl, tem texto dela aqui no blog) mas a policia não quer saber disso. Assim como o Batman também não a condenou. Ele fez algo bravíssimo e que muitas vezes ninguém faz: arcou com as consequências.

2: Gotham Central: Apagar das Luzes
001A história que a Jéssica escolheu pra esse texto retrata exatamente esse período após o Jogos de Guerra. Tudo bem que esse Comissário novo é um pé no saco e não viveu metade do que o Gordon viveu ao lado do Batman. Mas a quem culpar? O Batman não fez concurso pra ser morcego-pitboy. Ele chegou e pronto. Quem vem depois só sabe da lenda urbana de um Morcego que faz trancinhas com as costelas dos pilantras noite a fora.

004Claro, o Batman teve suas épocas de acesso livre ao Arkham, época de conversar com mais policiais sem ser o Gordon, época de ser mais próximo e tudo… E mais uma vez lhes sugiro que se coloquem no lugar dos personagens. Vocês NÃO SABEM quem é o Batman nem tudo o que ele fez, nem a razão que o leva a fazer o que faz. É um sujeito enorme que fala rosnando, aparece e some do nada, vive nas sombras e tem uns brinquedos legais pra caramba. Ninguém senta com o Batman pra tomar chá e falar da vida. Eles só vêem o cara pra falar de problema, de bandido e afins.

003Tem os policiais que já foram salvos pelo Batman. Tem os que já foram ajudados. Tem os que tiveram parentes salvos pelo Batman. E tem os que simplesmente viram o Batman fazer algo incrível. Pontos de vista variam com experiência. Não dá pra cobrar de mim que eu compreenda o drama que é correr de um leão na savana. Eu nunca corri de um, nunca pisei numa savana. Não dá pra cobrar de você que compreenda o ponto de vista dos aliens que vivem nas luas de Saturno, você não conhece nenhum (eu espero). Não dá pra cobrar concordância de alguém que só ouve histórias ou vê uma ação perdida aqui ou ali.

Há os policiais corruptos, e esses sim tem razões de não gostar, e de ter um medo cagado do Batman. Eles ficam tipo eu quando lembro do Bat-maçarico do filme Batman Eternamente. O Bat-maçarico até hoje me assombra quando ando pela casa a noite. Fico ouvindo aquele “fooosssh” como se ele estivesse aceso me perseguindo. O terror psicológico é tão grande que me jogo com roupa e tudo embaixo do chuveiro e fico cantando o hino nacional todo errado até pegar no sono. Assim são os policiais corruptos com o Batman.

Em que posição está o Batman perante Gotham? E perante a lei? E perante a executora da lei (Polícia)? Não necessariamente a mesma em todos os casos, e essa é a fonte dos problemas. Como mencionei antes, ele age acima da lei em diversos casos, e isso o faz um infrator da mesma. Fins justificam os meios? Não sou eu perguntando, eu quero mais que ele cubra todo mundo de porrada, essa é a pergunta feita por boa parte dos policiais e dos cidadãos de Gotham. É uma simbiose desequilibrada. A Polícia ganha um exército de um homem só (posteriormente de vários, tipo Robin, Asa Noturna, Batgirl e segue lista) podendo chegar onde não conseguiria chegar sozinha, graças a colaborar com essa simbiose com uma bem-vinda “vista grossa”, e o Batman ganha a tal vista-grossa e acesso a informações sem que ele precise tomá-las na marra.

002É tipo se você jogar sua bola no quintal do Superman. Se ele devolver você tá no lucro, porque se ele cismar que a bola é dele, já era. O Batman pode ter tudo o que quiser de informação da polícia, mas nessa simbiose eles fornecem sem ele pegar à força. Os que defendem a existência de um Batman em Gotham são aqueles que cansaram de não poder agir como PRECISAM agir e agem como são obrigados a agir. São os que cansaram de não ver uma luz no fim do túnel. São os que viram no Batman uma esperança que, por mais coberta de mistérios que seja, é a única chance de virada em um jogo que já estava condenado a derrota. É tipo se você fizesse parte de um exército de Nelson Neds enfrentando um exercito de Cauãs Reymonds, e de repente aparece um Bruce Lee ajudando os Nelson Neds. Lógico que você vai querer que o Bruce Lee faça o que for preciso independente das razões que o levaram até ali.

Então, encerro esse texto lembrando a todos que a intenção não foi proteger a opinião dos policiais que acham o Batman um louco, nem proteger a posição do Batman “acima da lei”, nem proteger os Nelson Neds nem nada do gênero. Eu (acho que) não ataquei a nada nem ninguém com minhas palavras, só quis trazer novos ângulos da questão a quem ainda não tinha abordado esse tema com atenção. Novos jeitos de olhar, sabe? A quem agora se disse em voz alta um “Orra mano, eu pensei isso em 1990, chegou meio atrasado” eu mando um abraço pro papai, pra mamãe, e espero que todos estejam muito bem.

Gotham Central - 025-00 cópia cópiaDownload no MEGA: Gotham Central – Apagar das Luzes

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  1. Kkkkkkkk, adorei o texto deu até vontade de ler a HQ, mas vou esperar porque to acompanhando o blog desde o começo. Mas logo, logo volto aqui para comentar novamente. E mais uma vez parabéns pelo texto e pela explicação do ponto de vista.

  2. Olá Jéssica, tudo bom?
    Sou um grande fã do Batman, e seu tambem! Esse trabalho que vc nos proporcionou é magnífico!
    Mas o que houve? As postagens pararam, o que acontece? Por favor, nos de m sinal de vida!!! 😉
    Fica com Deus!

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